quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Sonhos não atravessam as manhãs

Fez 40 graus esta tarde no Rio. Baixou-me a pressão, recostei-me, adormeci e sonhei. No sonho, estava de volta à rua Sergipe, à casa mista, metade madeira, metade alvenaria, do gradil marrom. Caminhei até o “oitão”, modo peculiar como os mais velhos chamavam a parte ao fundo dos pátios. Até alcançá-lo andei ao largo de um canteiro em linha, bordado de ervas, arrudas, cidreiras, cidrós, manjericão e um já velho pé de alecrim, de onde muitas mudas saíram para outros jardins. Lembrei do salso chorão que habitava o local nos anos da infância, e protegia a casa dos vários cães invariavelmente batizados com nomes de galãs ou heroínas de novelas das oito que ajudei vovó a cuidar. Então cheguei aos fundos da casa baixa. Vi a mesa de pedra, o jasmineiro um pouco mais ao fundo. Detive-me por um instante. Era a hora “de la siesta” e deveria de cuidar do rangido da porta, do pisar no assoalho de madeira. Para chegar até a cozinha, preciso curvar o pescoço; a cabeça bate no patamar. Atravesso-o e a primeira visão é a do fogão à lenha, dos doces de abóbora, dos de batata, dos milhos assados na portinhola e do pão feito em casa, nos quais vovó moldava em massa de trigo uns bonecos, meio disformes, com olhos de feijão. A beira do fogo atravessávamos as noites frias sorvendo o mate-doce de leite, com flores de maçanilhas e vendo o “Tempo e o Vento” na tevê, pois guri medroso, me fazia tremer as canelas os delírios de Bibiana.
As lembranças da cozinha são as mais insistentes, têm cheiro, sabor.
Enfim, segui casa adentro; com cuidado afastei a cortininha do quarto e a vi recostada sobre altos travesseiros, plácida, imóvel, os óculos deitados ao lado. Percorreu-me um frio pela espinha, vendo aquela quietude. Pareceu-me que o maior medo que habitava meus dias de guri havia por fim se apresentado, logo quando decidi retornar, recuperar as tardes perdidas, pensei que ela se debandara para outros cantos.
Cheguei perto e mais perto, com cuidado para não lançar ao chão os bibelôs de louça e vi que ela respirava.
De alívio, senti os músculos relaxarem e identifiquei-me em um sonho e como sonhos não atravessam as manhãs, lamentei.
Avancei a hora de la sesta, coloquei-me em pé e como prometido levei Marcela, a hóspede colombiana, até o Maracanã que tenias ganas de sacar unas fotos.

domingo, 11 de outubro de 2015

A felicidade não acena



Começo citando 2 frases do francês Pascal Bruckner e uma de  Jacques Prévert, mas essa, a 3ª, também citada pelo primeiro:

1.  "No mundo ocidental, quem não é feliz se sente excluído e fracassado", 
2. "A felicidade é extremamente individual e efêmera por definição. Por isso, as pessoas obcecadas em conquistá-la, como a uma propriedade, sofrem em dobro e se distanciam das pequenas alegrias da vida."
... e a melhor a qual cito sempre que me parece apropriado: 
3.  "Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz ao partir".
Se não tivesse ouvido da boca de um amigo esta 3ª frase, a qual toca fundo, logo na primeira vez que se ouve, eu, provavelmente, jamais chegaria até este filósofo francês, jamais saberia da existência dele, mesmo que no Google se encontre milhares de referências sobre o pensador.
Especialmente, esta sentença, é esquisita.  A gente  a entende, pois ela nos arrebata, mas na verdade, a compreendemos sem entender por que ela nos opera este sentimento. É rica em lirismo, apesar de atuar inicialmente como aquelas mensagens subliminares, por mais absurdo que pareça; ela passa e, a gente, num instante a pega e ela se aloja lá dentro, bem fundo, sem que se consiga ao menos ler a placa do caminhão que nos arrebatou.
E sabem por quê? Ela, de alguma forma, consegue em poucas letras, responder à velha questão de natureza ontológica, não “o que é felicidade?”, mas “como é a felicidade?” que, de outra forma, se não responde, dá pistas sobre a resposta da primeira. A felicidade, sim, é uma questão de consciência,  mas nesta frase de 6 ou 7 palavras percebe-se muito claramente que a felicidade age de tal forma peculiar e sutil que a gente nem a vê, não a reconhece; reconhecemos sim a infelicidade, a dor, que aparece quando esse tão almejado estar feliz, transmutou-se no seu oposto, ou seja, a felicidade só se anuncia, quando dá adeus e nada dele se pode recolher se não uma ligeira fagulha, pequena insuficiente para o regozijo, mas plena para plantar a esperança de que ela se reapresente, presto.
Por isso que eu tenho pensado sobre isso, cada vez mais, sobre a importância de se ter, se não muitos, bons amigos, pois  não fosse pelo meu amigo Gilmar Marcílio   - outro filósofo da vida simples e seus prazeres coloquiais; dos tempos felizes - não teria chegado a esta frase, que parece suscitar uma compreensão daquilo que o  ocidente canta como um libelo improvável ou fortuito e que o pensamento não ousa buscar entender sem já anunciar a refutação tenaz logo ali à frente, sem saber que a ciência não é o instrumento capaz de  perscrutar a felicidade, talvez e tão-somente, é capaz de fazê-lo com a alegria, esse elétron da última camada do átomo desta, que se confunde com o sentido da vida e da qual já falamos. 
Frases não conseguem mudar a vida de ninguém, mas conseguem impor uma inquietação que se expande numa corrente de outras inquietações. Comigo, por vezes, é assim.
Quando eu era guri, possivelmente, há mais de vinte anos, acreditava que este país era muito limitado para os meus projetos, que era preciso ir para o estrangeiro; agora já reconheço o que é o estrangeiro, não é preciso ir para lado nenhum. Talvez, dar um pulo em Nova York nos dias que antecedem o Natal e só. Depois, no fim da vida, me recolher mais ao Oeste, sobre esta linha identificada como paralelo 30' S, que dizem ser muito boa para cultivar uvas finas que produzem bons vinhos.
Parece resignação, mas é só efeito da redescoberta de tralhas tão caras como a riqueza que é ter amigos, estes seres que tal qual a felicidade partem, mas, ainda que sem data marcada, retornam.
Penso sobre o que Schopenhauer diria disso? Arrisco afirmar: vai continuar sendo assim, mesmo sabido, ela vai continuar a se anunciar, somente e simplesmente pelo barulho que faz ao, sorrateiramente,  partir. Ela parte, faz barulho sim, mas não acena.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sofia entre as marcelas.

São incontáveis as coisas que deixam o seu cheiro nas mãos sejam agradáveis ou não. Grudam de um jeito que mesmo depois de 50 lavadas permanecem vivos sobre a pele. Alho, cebola até que não incomodam. O cheiro de atilhos - as borrachinhas de dinheiro - esse sim. É um cheiro irritante. Também são irritantes o dos balões de festa de aniversário. Aquele odor gruda nos lábios, nas mãos, nas roupas e até no cabelo. Mas a lista é extensa e inclui o cheiro dos preservativos gratuitos, dos sacos de lixo, de fígado cru, de salgadinhos Elma Chips e dos perfumes doces que as senhoras botoxizadas usam até para ir ao supermercado, aliás, ao Zaffari.
Mas tens os bons cheiros que permanecem  dias nos arredores, nos flanqueando, carregados não só pelo corpo, mas também pelas roupas ou  pela memória, simplesmente.
Durante a Semana Santa, uma gurizadinha charrua oferecia nas esquinas os pequenos buquês amarelos. Aqui não é comovente vê-los pelas calçadas ajudando as mães nesse ofício meio cigano, por que eles são bem alimentados e saudáveis; diferentemente dos que perambulam pela capital ou em Santa Maria, esses indiozinhos têm as bochechas róseas e são matreiros. Vendiam por 2  ou 3 reais e o vento carregava pelas cercanias aquele aroma  peculiar que logo me arrancava da Praça Dante Alighieri e me jogava na Vila Santos Dumont, aí em Alegrete.
Sexta-feira Santa: a gente se empanturrava de traíra frita, feijão miúdo e arroz com passas de pêssego da vovó Nair, o único que apresentava um tom âmbar e uma calda espessa, e depois seguíamos, de barriga cheia – não, ninguém jejuava – para a tradicional colheita da marcela, e aproveitávamos para carregar a arnica, a carquejinha, também. Percorríamos as margens da BR 290 ou o Campo da Viação, pipocavam pessoas pelas campinas, as famílias se encontravam e trocavam cuias de mate e jogavam conversa fora, os carros paravam e os motoristas, motivados pela movimentação atípica à beira da rodovia, se embrenhavam no macegal para levar a sua parte.
Colhia-se muita marcela com a bênção da Paixão de Cristo; era para dores de barriga de um ano inteiro e para convidar os vizinhos que não puderam sair para a colheita.
Antes de voltar para as casas, parávamos embaixo de alguma sombra, a cachorrada sentava também, depois de ter matado a sede em alguma poça d'água  ou numa sanguinha. Era a hora de catar os pega-pega, e tinha de todos os tipos, em forma de bolota como pequenos ouriços, outros compridinhos como ferrões, e uns miúdos, verdinhos, os mais grudentos. Esses, enrodilhados nas barras das calças, e, principalmente, no cadarço dos Kichutes, conviveriam dias conosco, assim como o cheiro da marcela.
Nessa Sexta-feira Santa, percorri os arredores da colônia com os sobrinhos na procura do chá e, apesar de não serem abundantes, encontramos alguns pezinhos rotos. Deverá ter sido a primeira colheita da marcela da Sofia, que com apenas dois anos corria lépida pelas estradinhas, sob o olhar atento dos colonos, exibindo sua morenice lusitana que se sobrepôs aos traços germânicos que por certo deixaram marcas pouco aparentes.
Hoje, retirei um pulôver do armário e lá estava ele, o cheiro da marcela desse dia, abrindo as gavetas das lembranças, que são, no final, o que realmente importam.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Conto de Natal III

Não espere se deparar com acontecimentos interessantes entre as gôndolas de um supermercado. Mas mesmo sendo improváveis, não quer dizer que não aconteçam.
É nas filas dos caixas que esses acontecimentos fortuitos são mais freqüentes: crianças gritando e esperneando por um brinquedo que o pai não quer dar, descontos anunciados e não concedidos, devoluções, cartões bloqueados, homens comprando absorventes, mulheres comprando preservativos, mas cenas ternas, tocantes são incomuns.
Num dia 23 de dezembro de um ano qualquer dois acontecimentos improváveis agitaram a cabeça de um homem, um gerente de supermercado. No meio da manhã, ele descera da sala de reuniões onde tratou das metas com os seus chefes. As deles estavam sempre abaixo, motivo de grande confusão para um jovem pai de família que se esforçava para fazer o melhor. Caminhava pelo mezanino e lá do alto olhava a loja entupetada de clientes, as imensas filas nos caixas. Como é possível vender tanto e não bater as metas? Era bom com contas, mas nunca entendeu essa lógica do capitalismo, vender sempre, crescer sem parar...
Mal chegou ao balcão de atendimento quando viu que um senhor velho era conduzido por um vigilante na direção da sala onde examinavam os suspeitos de furto. Seguiu na mesma direção, mas foi interrompido por outra funcionária que falava sobre um problema com uma senhora.
- Pede pra esperar que eu já volto – disse o gerente.
Entrou na salinha do interrogatório e encontrou uma cena previsível, iguais a outras que testemunhara ali mesmo, o senhor com as calças arriadas, o vigilante gritando com o homem, dizendo coisas como “ser pobre não é motivo pra roubar’. Ele sentiu, ainda que por um segundo, vontade de esbofetear o ladrãozinho, que estragava o seu dia, tumultuava seu expediente. Deixou que o vigilante fizesse o trabalho sujo.
Mal se ouvia o que o velho dizia, na verdade não o deixavam se explicar, enquanto ele se desfazia de mais e mais roupas até que perceberam que não havia nenhum objeto de furto em poder do velho. Instruíram que se vestisse e fosse embora, e ele foi, de mãos vazias.
Era a vez do problema com a caixa, com a velha.... De longe não deduzia o que diabos acontecia. A mulher queria levar uma toalha decorada com motivos natalinos, dizia que era presente para a nora, mas da sua mão só saiam algumas moedas de centavos e duas ou três notas de cédulas várias vezes amassadas, dobradas, enfiadas em bolsos; não somavam nem 10% do valor da compra. A caixa argumentava, mas a velha não parecia entender. “Só pode ser uma espertalhona ou uma louca que soltaram do hospício”, pensou o gerente, pois ela insistia contando as moedas na frente de todos, uma a uma, desenrolando as notas para que todos vissem que ela tinha dinheiro e queria comprar.
Outra pessoa que aguardava na fila, talvez comovida ou querendo por fim no impasse, ofereceu-se para pagar. O gerente então pensou que talvez essa pessoa, dona de um ato caridoso, já tenha concluído aquilo que ele já conjeturava, de que a velha não era louca, e sim alguém que, como ele, não entendia muito bem a lógica do capitalismo. Nesse momento o gerente retirou o dinheiro do bolso, enfiou na caixa registradora e disse para a velha que ela podia ir, e ela foi levando a toalha vermelha, decorada com motivos natalinos, embrulhada para presente.

Conto de Natal II

Sem dizer uma palavra Josué consentiu que seu pai recolhesse o brinquedo; ele próprio enrolou o Corcel II vermelho, com sirene da polícia, e que andava sozinho com duas pilhas grandes. Usou o mesmo papel de embrulho do presente aberto na noite do dia 24. Com cuidado, tentava deixar o pacote mais parecido ao que veio da loja, pressionava as tiras de Durex que já haviam perdido a cobertura de cola e por isso não fixavam mais, alisava o papel e depois o dobrava guiado pelas marcas deixadas pelas laterais da caixa de papelão. Esperava por algum acontecimento furtivo que mudasse a situação. Havia uma fagulha de esperança, tinha fé: se o brinquedo fosse devolvido à loja, de alguma forma seu pai o resgataria.
- Mulher, não posso cometer essa injustiça!
- Injustiça contra quem? No guri tu não pensas...
Penosamente Josué entregou o pacote. Um sinal com a cabeça e ele consentiu que seu pai saísse levando o que fora, até a pouco, o melhor presente de Natal de sua vida. Por alguns dias ficaria macambúzio, sem mostrar os dentes, mas depois tudo voltaria ao normal.
Os amigos entenderam que era hora de cada um ir para sua casa, mesmo porque sem o Corcel II da polícia, a brincadeira perdia mais da metade da graça.
- Tchau, Josué! Mais tarde a gente volta.
Não demorou muito e a vovó apareceu sob a parreira com uma banana e um copo de leite. Antes de retornar à cozinha falou de seus planos para o reajuste da aposentadoria, que dependendo do que viesse no próximo mês, talvez desse para recuperar o Corcel ou algo que lhe se aproximasse. Samuel só agradeceu e ficou quieto. Ao sair, a velha quis que ele chorasse, pois pensava que se não fosse naquela hora seria depois, quando já homem não é mais razoável chorar. Mas ele não chorou.
Dias antes Plínio queimava os miolos pensando no que dar de presente para o guri naquele Natal. Sabia que queria um Gigantão, todos os guris queriam o caminhão de minério todo amarelão, tão grande que não dava no seu bolso. O guri precisava de um ki chutes, mas sabia que o decepcionaria. Procurava um brinquedo. Namorou muitos na vitrine da Obino, mas eram invariavelmente caros os à pilha. Entrou na loja, viu exposto o Corcel II vermelho com sirene e arriscou perguntar o preço para uma moça que atendia. Ela procurava pelo valor numa pasta, muitas folhas sobrepostas. “Desculpa, eu comecei hoje, ainda me atrapalho”. Era extensa a lista, mas finalmente encontrou o preço. Estava inacreditavelmente barato.
- Vou levar no carnê – disse Plínio, eufórico - Faz um pacote bem bonito tá moça? É pro meu filho.
Dia 26, Plínio chega para almoçar. Estranhou encontrar a vendedora na sala de casa.
- Tava errado o preço Seu Plínio. Se não resolver, vou ter que pagar e ainda vou pra rua.
Nos segundos que se seguiram, Plínio fez as contas que não fechavam e certificou-se de que não poderia arcar com a diferença que era grande. Que remédio senão devolver.
Josué sabia que o pai só fazia o certo, e queria ser como ele. Por isso devolveu, sem reclamar, nada de revolta, mas sabia que não ia ser fácil lidar com aquela tamanha tristeza.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Conto de Natal

Foi Sartre quem disse que a criança toma os seus pais por deuses. “Seus atos como seus juízos são absolutos; eles encarnam a Razão universal, a lei, o sentido e a finalidade do mundo”. Por muito tempo foi assim que Margot enxergou seu pai e por isso sempre esperou dele uma solução para os problemas que ela experimentava, mas não aceitava. Ela recusava-se a admitir-se pobre, não, ela não queria ser pobre mesmo contra todas as evidências como contas atrasadas, cobradores à porta, roupas usadas dos parentes ricos, almoços de domingo sem carne e dois despejos seguidos. Daí esse saber-se pobre não, uma sem eira nem beira, uma marré de si. Queria ser ao menos classe média como seus amigos, como o Flávio da casa geminada da frente, em quem ela planejava dar seu primeiro beijo, na noite de Natal, depois da ceia, enquanto mostrava os presentes que ganhara.
Essa esperança pueril ela depositava em seu pai. Chamava-se Margot por escolha dele. Ela nasceu no mesmo dia que a filha do Hemingway e por isso a homenagem. Uma escolha inteligente de um homem culto, que lia muito e que afastaria de vez esse sentido, essa consciência da própria pobreza.
O Flávio há dias já sabia o que iria desembrulhar na noite de Natal, mais de um pacote era certo: um vídeo-game Atari, um par de tênis com velcro ao invés de cadarços, além das roupas novas para vestir na ceia. Toda a gurizada já sabia o que receberia e entre os presentes aguardados com entusiasmo havia bicicletas, patins, roupas e, Margot, ao ser questionada sobre o que escolhera, ficava sem reposta, precisava desconversar. Haveria um presente sob a árvore, sempre havia, é que ela não lembrava o que ganhara no ano passado e ainda não tinha se dedicado a pensar sobre o que poderia ser o próximo, era impossível prever. Acaso no ano a árvore ficasse vazia, apenas o presépio aos seus pés, ela diria que o pai fizera uma poupança, ou que lhe daria uma viagem. Eles acreditariam, eram bobos aqueles meninos.
Mas foi também Sartre que disse “o problema é quando a criança cresce, e vê de cima os seus pais”. Ela crescera rápido nesses últimos meses, irritava-se mais facilmente, queria coisas que nunca tivera, queria dar o primeiro beijo e ela não via movimentação nenhuma no sentido de compras de Natal.
Noite quente de dezembro, Margot entra em casa, aquele silêncio, tudo tão diferente das casas vizinhas, e vê o pai vencido pelo calor prostrado na poltrona, o mate e a chaleira abandonados ao lado no chão, O Tannenbaum na vitrola. Ela viu o embrulho do presente que de tão pequeno quase não se via entre Reis Magos, vaquinhas e a Sagrada Família. Por isso ignorou, passou reto. Os amigos queriam ver o seu presente, mas por que insistiam tanto? Mais um pouco e ela teria que aplicar a história da viagem, da poupança, mesmo odiando mentiras.
Mas ela voltou em casa. A irmã mais velha chamou a atenção como se dissesse “tenha um pouco de compaixão, é simples, mas é um presente”.
Ela sentiu-se forçada a abrir o pacote e a decepção foi a já esperada, grande, mas não tão intensa quanto à decepção límpida e cristalina que viu estampada no olhar e nas faces morenas de seu pai.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre a verdade

Vó Martina morava em São Francisco de Assis, numa chácara, bem perto da Sanga da Benta. Nas férias de verão passava uns dias com a velha; não me recordo de um acontecimento desagradável que marcasse aquelas breves estadas em São Chico, além de ter, pela primeira vez, desde que tenho noção de minha humanidade, ingerido leite de vaca. Detestava leite e derivados. Gostava mesmo era de tomar café preto gelado num copo alouçado de ½ litro. Para a outra avó, a de Alegrete, representava um sério agravo à saúde. Ela, que me acompanhava desde que mamãe, dada a heroísmos, foi traída pela falta de vasopressina na batalha contra uma hemorragia, tentava de tudo para mudar aquele hábito, sem sucesso. De volta a Alegrete e depois daquela primeira xícara de leite, por um misterioso motivo, abandonei a caneca de café preto gelado, para sempre, e passei a tomar leite como era de se esperar de um guri em fase de crescimento.
Nas férias em São Chico, não havia acontecimento maior que a chegada de vô Marciano do Toroquá, homem de poucas expressões, que só deixava escapar emoções através do azul do olhos e a partir de alguns breves gestos, como o de presentear. Da bagagem retirava morcilhas, queijos, goiabada, açúcar mascavo e muita rapadura, mandada pela tia Antoninha. Era um folguedo. Na verdade, a ida ao Super Safra, o supermercado da cidade, por vezes a superava. Para a empreitada a vó Martina penteava os longos cabelos brancos até as pontas que quase acariciavam os calcanhares, sentada a uma cadeira de palha, sob a vasta parreira, perto do poço d'água. Lembrava uma velha navaja dos filmes. Depois enrolava tudo num coque, pegava o sacolão de couro, a pequena bolsinha cravejada de pedras e subia, despacito, a ladeira, seguida por mim e pela prima Roseane, que morava por lá, desde que sua mãe atinara subverter a capital federal. Era dia de Super Safra e de se empanturrar de guloseimas, comprar revistinhas e ainda tomar um sorvete na volta, obviamente, acompanhado de uma garrafa de guaraná Sielva.
Numa dessas idas à cornucópia assisense, conheci a Maria Circuiti, pessoalmente. Dela, só tinha ouvido falar, mas a reconheci logo que a vi surgir entre as gôndolas. Soluçava e dava saltinhos a cada vez que pronunciava aquela palavra que entre muitas, encarna a feição mais chula da desejada cavidade feminina que, dizem, derrubou reis e aniquilou impérios. Estava a minha frente a mulher que bradava o palavrão, sinônimo de vagina, para os quatro ventos. Apesar dos risos que causava ao passar, via nela um imenso sofrimento. Sabia de histórias, a primeira vista, engraçadas e, de outras, desoladoras. Ela não foi ao casamento da filha, a funerais de parentes, pois o seu distúrbio que se enquadra dentro da chamada Síndrome de Tourette, se agrava em momentos de forte emoção. Amiga de minha vó, era figura freqüente na chácara e nos acostumamos com o seu tique nervoso.
Há tempos, numa festa, comentei com amigos sobre a maldição da triste D. Maria. Não acreditaram, mas dias depois mudaram de posição, quando a história foi ter em ouvidos de outra pessoa que a confirmou.
Pessoas não acreditam na ida do homem à lua, outros na física-quântica, mas acreditam em numerologia, mapa-astral, por isso acredito que grande parte daquilo que acreditamos depende de como andamos tratando nossa cosmovisão.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Deusas de assombrosas tetas

Deveria se chamar “Notas sobre o matrimônio”, mas diriam todos, “como alguém que nunca se casou pode palpitar sobre o casamento?”. Por isso, no topo, a referência a Caetano.

Ela trabalhava na repartição, onde recebia um razoável salário, que somado aos ganhos do marido, um pequeno empreiteiro, dava-lhe o status de classe-média “A”. Isso significa carro do ano na garagem – não conta a camionete do marido que é do trabalho – televisão por assinatura com 2 pontos, um na sala, outro no quarto, computador com internet, I-phone, viagens às Termas ou a Buenos Aires na Páscoa e ao litoral no verão, planos de ter filhos, um casal de gêmeos, para resolver tudo de uma vez só, o de uma pós-graduação e um outro, este totalmente secreto, e só dela, o de por implantes de silicones nos seios.

Havia a mensalidade da casa de repouso onde vivia sua mãe com Alzheimer, mas ela fez as contas e concluiu que com a promoção, uma ajudinha mais do maridão e ela estaria com implante antes da praia de fevereiro. Imaginou-se abundante nas areias de Capão.

Tinha que ser surpresa para ter graça. Ela percebia o modo como ele observava as fotos das modelos dos anúncios nos encartes da Marisa. No usuário dele do computador, sempre uma ou outra foto nova de mulheres em roupas e posições insinuantes. A maioria exibia um grande par de peitos. A relação, o rala-e-rola, oscilava entre períodos quentes, outros frios, quase sempre quentes, mesmo assim ela não ia se arriscar.

- Vou por peitão.

Um dia ele chegaria do trabalho lá pelas 7h, ela já estaria em casa, toda perfumada, esperando, de conjuntinho vermelho, mas sem cinta-liga, porque isso é vulgar. Ligou pra Solange, que sabia tudo sobre plástica e tinha peitões desde que se conheceram:

- Amiga, já recauchutei tudo, mas os peitos são meus, naturalíssimos – revelou Solange. Com a amiga pegou o telefone de um cirurgião uruguaio que fazia milagres e cobrava a metade do preço, mas ainda havia um problema: “A cicatrização, fofa! Tá louca! Não tem como fazer surpresa. São dias de curativos”.

Ela não se sentiu derrotada, inventou um curso de 15 dias e se mandou, com a Solange, que era madame, e não dava satisfações para o marido, rumo a Salto, na República Oriental.

Dias antes, quase desistiu. Ouvira uns boatos de que o cirurgião era meio metido a conquistador, mas foi convencida; "é boato espalhado pela Suzete", que atravessou a fronteira para tirar uns culotes e acabou caída de amores pelo cirurgião.

- Vai tranqüila – disse a Solange – é intriga. No mais, é fama de cirurgião plástico...

- É né? Deve ser a fama... por causa do Pitanguy.

Dias depois, de volta à cidade, sem curativos ou pontos, preparou-se toda. Cabeleireiro, massagens, ofurô. Mostrou pra toda a mulherada. “Eu mato quem abrir esta boca e estragar a surpresa”. Sabem como é cidade pequena.

Ele chegou, foi direto pro banho. Depois, direto pra cama. Ela mandou ver. Foi quente! Ele gostou, estava sem fôlego. Mas se assombrou com os melões. Não disse nada à esposa, mas se lembrou de como era bom quando cabiam inteiros na boca. “É, vou sentir saudades”.

sábado, 8 de maio de 2010

Complexo de Julien Sorel.

“Perdi minha vida por delicadezas”
Artur Rimbaud


Já me chamaram de estranho por gostar de ópera, e por dizer que a melhor cantora do mundo é uma negra americana, que canta em alemão.Já me chamaram de cabeçudo, narigudo e gordo e é certo que ser cabeçudo não tem jeito, mas gordo não sou mais, e o tamanho do nariz posso resolver com uma rinoplastia; só se eu quiser.Algumas coisas têm jeito, outras não.Já me chamaram de confuso e eles têm certa razão, pois ando confundindo mesmo as coisas. Tenho confundido Thomas Hobbes com Thomas Morus, Frei Jaime com Frei Celso, que são freis e Capuchinhos, mas não a mesma pessoa. Admito que ande esquecendo o nome de algumas pessoas, de atores, de filmes, versos de alguns poemas; mas garanto que não fumo maconha e que já marquei a tomografia.
Já me disseram denso, o que deixei para trás para ser tenso, mas preferia a minha velha densidade. A tensão endurece os músculos, pesa a cabeça, tomba os ombros. A densidade nos põe no topo, ainda que imaginário, um topo.
Já me disseram viado por não jogar futebol, de bicha por ler Irmãos Grimm no recreio, indiferentes ao fato de que toda esta história de viado, bicha, tem a ver com sexualidade e pouco com esportes e livros.
Já me perguntaram numa entrevista se sofria de alguma fobia, pois um homem que não tem habilitação pra dirigir aos 30 não deve ser normal, ignorando o fato de que já dirigi trator, camionete, fubica, caminhão velho, lancha, planador, dirigível e asa-delta e o que é melhor; sem nunca ter atropelado alguém. A vida é que, não sei, talvez não esteja sendo bem conduzida, mas é que ainda não pilotei espaço-nave.
Já me chamaram de grosso por ser franco e fingido por ser gentil.
De mentiroso por gostar de metáforas.
De fofoqueiro por ajudar a uma amiga.
De sovina por não dividir a conta do mecânico.
De otário por pagar a dívida, que não era minha, com o serralheiro e a serigrafia...
Já me chamaram de traidor por beijar a ex-namorada de um amigo.
De fiasquento por mandar flores, arrependido, para esse amigo.
De fraco por chorar sempre que leio “Dois Guaxos” do Faraco.
De covarde por ter fugido da briga e por ter medo de tubarão branco.
De bêbado por beber cerveja, ignorando que não bebo uísque.
De frágil por abominar baratas e de idiota por ter nascido.
A verdade é que tem criança que chora ao me ver partir, cãozinho que faz festa ao me ver chegar. Indiferentes aos meus muitos defeitos, tenho amigos, incluindo alguns, que, a caminho da Austrália, passaram por aqui pra se despedir, e incluindo outros que acordam cedo pra me dar 50 contos e um beijo no rosto.
A verdade é que a felicidade me ronda, apesar da rinite/sinusite, da hérnia, do bruxismo, das roupas velhas do armário, dos poucos livros novos na estante.
A verdade, a boa e velha verdade, é que sou livre, tenho pão e sou livre, e assim vou continuar a ser.
Já me chamaram de estranho por gostar de ópera...

sábado, 20 de março de 2010

O que falam sobre os franceses.

Há poucos minutos ela estava no palco da Conferência, no centro da mesa, improvisando uma tradução simultânea para as falas de três debatedores, um alemão, outro canadense e um terceiro, italiano. Movimentava-se com desenvoltura naquela Torre de Babel e vertia tudo para o português com uma verve barbosiana. Antes de subir ao palco do centro de eventos, vestia um casaco sobretudo caramelo ¾, e ao livrar-se do agasalho, mostrou-se elegantemente trajada num taier bege, pescoço protegido por uma echarpe e as mãos por luvas.
Sim, luvas brancas de um tecido que lembrava cetim. Ele nunca vira uma mulher vestir luvas de cetim, a não ser nas cerimônias de casamento. Ela retirou-as com delicadeza, revelando mãos tão finas e alvas, e as depositou no interior da bolsa Channel. Agora, estava sentada a sua frente, a uma mesa de café de distância, sorvendo um chá com madeleines, as quais exalavam seu odor de essência de flor de laranjeira pelo recinto. Sabia que era francesa, mas esquecera seu nome. Procurou no programa, mas nenhum lhe pareceu familiar. Outra pessoa, então, perguntou e ela respondeu, "Eléne Truffaut". Será parente do diretor de cinema?, ele pensou, quase ao mesmo tempo em que a pessoa que antes perguntara o nome, para o qual ela tinha a resposta na ponta da língua: "não, não sou parente do cineasta" - e em bom português, completou - "É um sobrenome muito comum na França, o Truffaut, como Silva no Brasil".

Martine, a discípula de Barthes que figurava como a presença mais importante do congresso, aproximou-se e falou alguma coisa no ouvido de Eléne e saiu. Eléne mal se mexeu e ele sentiu um agradável sentimento de proximidade por aquela estrangeira atraente, cabelos negros, contrastando com a alvura da pele. Sentia que poderia abordá-la sem receio, trocar algumas palavras e logo, estaria com o braço em torno daquela cinturinha, ou no mínimo, sentado a sua frente, à mesma mesa, quando poderia convidá-la para tomar uma bebida.
Faltavam as palavras, no entanto. Precisava articular um plano de aproximação, escolher cada palavra do discurso de apresentação. Pensava na literatura francesa, mas conhecia pouco além de alguma novela de André Gide. Se falasse sobre Foucault, se embaralharia. Sobre cinema, o melhor expediente, o parentesco com Truffaut, já tinha sido desperdiçado por uma criatura efeminada que certamente nutria apenas interesses acadêmicos por Eléne.
Esperou que algo lhe ocorresse e enquanto esperava por esta luz, observava o nevoeiro que se formava no final da tarde no parque serpenteado por Plátanos. Distraído, não percebeu que Eléne já o observava nem tampouco que ela se aproximara e estava em pé ao seu lado.
- Vou me sentar – disse Eléne, já puxando a cadeira.
Em minutos ficaram à vontade; ele, impertinente, retirou as luvas brancas das mãozinhas francesas; ela pagou o vinho caro, chileno; ele soube que ela lecionava na Alemanha; que orientava alunos franceses do doutorado na Universidade de Leipzig. Ele, um simples estudante de Comunicação Social, não tinha motivos para resistir ao convite para tomar a última garrafa de vinho na suíte da moça.
Assim que atravessaram a porta do quarto de hotel, Eléne começou a livrar-se das roupas. Ele abriu o vinho, providenciou as taças e antes de servir-se foi até o banheiro tirar a água do joelho.
Agitava-se de excitação. Encontrou-a já quase sem roupa, sentada na borda da cama, distraída enquanto coçava cuidadosamente o calcanhar. A cada roçada de unha um tipo de pó acinzentado soltava da pele de Eléne, acumulando-se em torno do pé direito, formando um acúmulo do que pareciam raspas de queijo Roquefort. Ele se aproximou para ver com mais detalhe. E era isso mesmo, restos de pele, células mortas acumuladas provavelmente pela ausência de banhos regulares. Mas o que sobressaía era o perfume de Eléne e ao ver os seios nus da francesa, levemente caídos, mas com os bicos bastante empinados, não teve dúvidas que teria uma inesquecível noite de prazer.
Ao final, só teve uma certeza: tudo o que falam sobre os franceses é a mais pura verdade.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para Agustina.

Não vejo sentido nesta promulgada rivalidade entre brasileiros e argentinos. É verdade que tenho mais proximidade com os uruguaios, com sua literatura e música, mas sinto-me freqüentemente mais para a Argentina do que para outras regiões do Brasil; e devemos reconhecer que é fato entre os gaúchos: estamos mais para o sul do que para o norte.
Raramente me prendo à programação do Mais Você, da Ana Maria Braga, mas na quinta-feira última atrasei-me para o trabalho, para acompanhar até o final a entrevista com o ator argentino Mario Jose Paes, o Maradona da novela “Viver a Vida”.
Morando em Búzios há 30 anos, Mario Jose apresentou, em uma excelente reportagem, a cidade que o acolheu e depois foi entrevistado pela apresentadora no que resultou numa conversa extremamente agradável, especialmente pela irresistível simpatia do argentino.
Vendo o programa lembrei-me de boa amiga portenha chamada Agustina Llumá. Bailarina, jornalista; é proprietária de uma das mais importantes publicações sobre arte e cultura da América do Sul, a revista Balentin Dance. Conhecemos-nos em Alegrete, almoçamos, passeamos pela cidade junto ao seu marido, e conversamos sobre nossos interesses comuns como a filosofia e arte. Agustina é uma pessoa de rara amabilidade; sensível, voz serena, boa ouvinte; é uma amiga para toda a vida.
Estas são referências que carrego dos vizinhos, e não aquelas de motoristas imprudentes que cruzam nossas estradas no verão, ou dos veranistas que emporcalham nossas praias. Meus amigos argentinos são pessoas civilizadas; sem dúvida é esta a origem da minha descrença na desavença, e, ainda, devo crer que há civilizados e incivilizados por toda a parte.

Para Nelson.

Na noite de segunda-feira para terça perdi o sono, o que não é um evento raro. Como de costume liguei a tevê para me distrair e, quem sabe, retomar os sonhos. Passava o filme “Cinema, aspirinas e urubus”, para mim, o melhor filme brasileiro dos últimos anos, sobre a amizade insólita entre um alemão e um sertanejo. O alemão percorre o sertão vendendo aspirinas em uma fubica, nos dias que antecedem a entrada do Brasil na Segunda Guerra. Ele dá uma carona ao sertanejo que busca o progresso do sul, enquanto ele foge dos horrores da velha Europa. A separação dos dois é iminente. Em algum momento haverá o afastamento como é corrente nas histórias sobre amigos.

Só pode ser coincidência, pensei, pois a poucas horas me despedira do amigo Nelson Kullmann, no crematório de São Leopoldo. Alemão brasileiro, ela travara sua própria batalha, mas contra um inimigo implacável, um câncer insidioso no cérebro. Gostava de manter longas conversas em torno de uma churrasqueira, comigo inclusive, em suas visitas regulares a Alegrete. Raramente tínhamos a mesma opinião sobre os temas que discorríamos, o que só fortalecia o nosso respeito mútuo. Seu Nélson foi a pessoa que mais sinceramente demonstrou acreditar em minhas competências que até mesmo eu duvido, por vezes, que as tenha. Dele só ouvia palavras de encorajamento, de incentivo e, por isso, mas não só por isso, vou sentir muitas saudades de nossas conversas regadas a chimarrão, vinho chileno ou cerveja e sempre ao som da orquestra de Andre Rieu.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sevilhanos.

Segunda pela manhã, primeiro dia útil após o término do horário brasileiro de verão, acordei com uma estranha vontade de me mudar para Sevilha e foi só porque ouvi João Cabral de Melo Neto dizer que foi em Sevilha que ele conheceu o povo mais gracioso entre os povos. Entre os vários “compreende?” que entremeiam suas falas, disse sobre si mesmo que sendo ele uma pessoa completamente sem graça só poderia sentir-se atraído por um povo gracioso como ele diz ser o sevilhano.

Eu não tenho graça nenhuma e falo da graça, não da análoga à beleza, não que eu tenha a segunda, mas me refiro a que é sinônimo de humor, a graça dos comediantes ou daquela mais trivial que habita a nossa vizinhança, entendida como a capacidade de contar piadas dos que são exímios no ofício do humor.

Eu nunca gostei de piadas, e sempre acreditei não gostar de piadas porque elas nunca são uma piada; após a primeira vem uma penca delas. Não tendo muito estoque de risos e muito menos de gargalhadas, logo não consigo mais rir e me constranjo.

Não gosto de piadas porque simplesmente não acho graça nas piadas. Acho graça, sim da forma como elas são contadas e pouco originais são os estilos atuais. É bem verdade que das piadas do Tuio eu costumava rir até de três, ou quatro, dependendo do quarto lunar, mas decerto é porque ele bem poderia ser um sevilhano, o que só serve para reafirmar que graça é um talento.

Já ri também do Terça Insana, do Cócegas e até do CQC, mas rio mais dos repentes cheios de presença de espírito que alguns amigos deixam escapar, sem que eles próprios reconheçam algum talento para o riso, mas que decerto têm, como os sevilhanos de João Cabral, que mesmo sendo graciosos, certamente assim não se reconhecem.

Eu não tenho nenhum talento para as piadas. Aliás, tenho andado atrás de um talento. Quem tiver algum aí sobrando, que me empreste, se não lhe fizer falta, pois percorrer jornadas atrás de um talento a estas alturas do campeonato não tem a menor graça.

Há uma dose certa de cerveja ou vinho que me deixa um pouco engraçado, eu sei, mas tem que ser uma dose certeira, milimetricamente medida. Um pouco a menos, sou um avoado e por vezes me irrito facilmente, um pouco a mais e me amua o olhar. Assim, para desenvolver o talento da graça , além de beber com alguma freqüência, precisaria beber com muita precisão: outro talento que não possuo.

Devo esquecer esse talento, o de fazer rir. Talvez devesse desenvolver outro; o do melodrama. Almodóvar faz melodrama e ao invés de fazer chorar, faz rir. Ou não é assim em todos os seus filmes? ...aquelas mulheres todas com caras, roupas e jeito de travesti, maquiagem carregada, são tão infelizes, mas tão engraçadas.

Almodóvar bem que poderia ter nascido em Sevilha, mas não, nasceu em La Mancha.

Alguém sabe onde fica esta cidade? Eu não, só sei que não deve ser bom o meu prognóstico. Acho João Cabral e seus “compreende?” muito graciosos e gosto especialmente de vê-lo falar “gracioso” e certamente quem nestes dias gosta desta palavra, só pode ter perdido a graça definitivamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carta a Robert Enke

Não nos conhecíamos, não cruzamos as mesmas ruas, não pisamos o mesmo solo europeu, não vivi em tua Hannover, nunca fomos apresentados e é bem provável que nunca o teríamos sido, mas a sua atitude me deixou perplexo, como é de se ficar perplexo sempre que um jovem vencedor decide deixar de viver.
Quem me conhece sabe que pouco conheço do futebol, sua paixão, mas o que sei é que esta paixão não foi suficientemente arrebatadora para prolongar sua jornada ou talvez ela não tenha sido a única ou, ainda, a maior. A depressão figurará nos atestados como motivação, a única motivação, já que outras motivações não te acompanhavam na vida. “A esperança em recuperar desvaneceu-se” – disse-nos sua jovem esposa, mas nunca saberemos - mesmo os que tiverem acesso a tua carta de despedida - que peso teve a pedra sobre teu ombro de Sísifo e com que voracidade o corvo picava o teu fígado.
Nós jovens nos identificamos, teu drama é familiar, ou porque desejaríamos ser o atleta, ou pelo desejo de um final, ou porque quando não é o desassossego é o tédio que nos aborrece, e não adianta ir ao cinema, fazer sexo, ouvir Bach ou descer até Porto Alegre, ao litoral. Poemas de Rilke não nos confortam. Só um fim nos basta e este foi o fim que escolheste, que é o estranho fim de “não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas...”
Alguns te dirão covarde, mesmo diante do diagnóstico de que teus neurotransmissores se rebelaram. Eu te julgarei pertencente à estirpe dos mais corajosos, pois quem não teme a própria morte, temerá o quê?
Poucas vezes o vi em atividade no campo de futebol, sob os travessões e entre as traves do gol. No entanto, nas poucas vezes que te vi na tevê por assinatura de um amigo aficionado pelo Campeonato Europeu e mesmo nos vídeos do Youtube que a ti prestam tributo, percebi seus olhos e lá no fundo uma fagulha de azul fosco quase que se extinguindo. As torcidas vibrando logo após a sua última espetacular defesa – estarias na Copa! - e tu seguindo pelo gramado verde, em direção ao seu ponto de partida, a bola sob um dos braços e aquele amuo no olhar.
Nada mais me intriga, no entanto, que o modo. Tinhas os préstimos da beleza, do poder e da riqueza. Poderia ter dado uma festa com prostitutas em um hotel de luxo, muita bebida, cocaína e por fim uma overdose. Poderia ter jogado o carro esporte de 500 mil euros contra uma árvore e escolheste a estação e a linha de trem, logo no mês em que uma bêbada caída na linha foi salva pelos anjos da guarda dos bêbados e um bebê sobre os trilhos foi salvo por ser tão pequeno.
O que pensaram os condutores da composição vendo tua ronda na gare? Uma viagem... um passeio ao interior da Alemanha?
Temos que admitir meu caro Bob – se é que assim posso lhe chamar – há certa coerência na tua escolha; a estação. Afinal, há na vida, seja para qual o fim, oportunidade mais sedutora do que um trem vindo ao encontro e uma estação? Penso eu, humildemente, que não há.
Uma estação é sempre um bom começo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kama Sutra

Decerto todos já viveram a experiência de identificar o momento exato em que o casal do andar de cima está fazendo sexo, por causa da cama que range. Não será culpa do casal de amantes e sim destas construções mal acabadas.
Mas o casal do 03 tem se amado mais selvagemente por estas noites; antes era pra já que se ouvia os passinhos correndo para o benheiro e o chuveiro abrindo. Agora não; tem se prolongado e eu que não durmo ao menor ruído, acordo e sou forçado a ouvir aquele rangido metálico de parafusos frouxos de vai e vem com o pausar que anuncia as mudanças de posição tal como no Kama Sutra.
O pior é que não posso dizer nada à síndica - uma carola - primeiro por constrangimento e, segundo, por que no fundo espero que esta onda de paixão tome conta de todo o prédio rosa, e depois de toda as cercanias o que seria muito bom.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tabela periódica.

- Polônio, chega aqui, quero te apresentar Amália.
- Só um pouquinho... – ele secava o ponche de cidra do paletó enquanto se aproximava.
- Vem logo! Ele é meio desastrado, mas é sangue bom.
- Amália, Polônio; Polônio, Amália – esse era o Meyer, milico, carioca do Meyer; por isso Meyer. Pensava jogar um nos braços do outro.
- Então, muito prazer senhorita Amália – disse Polônio.
- O prazer é meu, mas pra que esta formalidade? – perguntou Amália, irônica.
- Não quis ser formal... é só por que recém nos conhecemos, saca? Mas afinal, o que a traz ao Troféu Forças Vivas? É uma digna agraciada? – Polônio falava, mas não se detinha em sua interlocutora. Olhava para todos os lados, por cima das cabeças, como se procurasse algo.
- Continua a formalidade – ela começou a olhar também sobre as cabeças - De que época tu és? Há séculos não se usa essa expressão “Saca?”.
- A formalidade é só por que falei “digna agraciada”?
- “Digna agraciada”, ora bolas!
- “Ora bolas!” é tão fora de moda quanto “Saca?” – e aí saíram os dois primeiros sorrisos da curta relação.
- Na verdade vim acompanhando uma prima que recebeu o troféu – continuou Amália.
- E onde ela está?
- Não sei. Deve ter se arrumado por aí. Já estava bem altinha...
Uma pausa para uma biritas e....
- Curioso! – disse Polônio, com a testa franzida e coçando a orelha – Primeira vez que conheço alguém com nome de Amália, pessoalmente, pelo menos. Na verdade só conhecia a Amália Rodrigues, a cantora portuguesa.
- Justamente! Foi em homenagem a ela o meu nome.... Minha mãe... sabe? louca por fado. E o seu? É em homenagem ao deus grego?
- Que deus grego? Que deus grego que se chame Polônio!
- Me refiro a Apolo – respondeu Amália, balançando a cabeça em movimentos circulares.
- Neste caso me chamaria Apolônio.
- Apolíneo, tu quer dizer?
- Tá bem, desisto! É que meu pai era químico. Adorava Marie Curie, a química polonesa. Minha mãe até sentia ciúmes – o silêncio denunciava que ela ainda não tinha entendido - Ela descobriu o elemento químico radiativo.
- Quem? Sua mãe?
- Na verdade, Marie Curie. Aí batizou de Polônio em homenagem a Polônia..
- Eu sei, estava brincando. Estudei química no colégio. Marie, mulher de Pierre... Curioso... - hesitou um momento – conhecer alguém que saiu da tabela periódica. Na verdade, já conheci outros elementos químicos pessoalmente. O Germano, o Arsênio, o Hélio..., mas Polônio ainda não conhecia. Mas gosto. É forte, másculo, tem atitude e é sonoro.
- Nome com atitude! Esta é boa, mas eu também gosto do meu nome. É singular...
Para quebrar de vez o gelo, Polônio armou-se de um sorriso sem vergonha e, conformado com a peculiar alcunha, lascou:- Mas poderia ser pior. Por sorte não me chamo Estrôncio ou Xenônio.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Salsos chorões

Era em Alegrete, na Vila Santos Dumont, que me pendurava nas ramas densas de um salso. O galho, lá no alto, vergava verde e me lançava desde o muro até quase o meio da rua e nunca se entregava; a cada dia ficava mais resistente e, ainda assim, não perdia a flexibilidade.
Então, retirei de um livro o nome pelo qual passei a chamá-lo de um certo dia em diante: salgueiro. Não entendera o salso, na verdade e, tão logo parti, perdeu o chorão o embate com o muro na afeição dos seus proprietários e lhe cerraram as bases.
Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Pensamentos de um homem livre.

Estamos em maio. Quarta semana. Dia frio para maio. Nessa manhã concluiu ao ver parte da cama desarrumada e ainda quente:
- Enfim, envolvido.
Inesperado foi virem à cabeça pensamentos de homem livre e desejar repentinamente tomar um ônibus e ir ter na grande cidade mais próxima e reencontrar alguns amigos do tempo de universidade e alguns outros apresentados por estes amigos da universidade. Especialmente agradável foi se imaginar na casa de alguém que mora próximo a uma praia – de mar, é claro. Alguns dias, sem data marcada para retornar. Podia sentir a areia sob os pés e o vento que vinha da mata sacudir a palha dos quiosques. Escolheria uma das espreguiçadeiras e ficaria prostrado, talvez lendo alguma amenidade, talvez jogado ao ócio completo, fazendo esforço para registrar cada segundo daquele momento fugidio, enquanto os barcos brancos desaparecem atrás das mil ilhas.
Mas isso, esses pensamentos, só duraram alguns breves momentos. Depois, passou a ter exclusivamente pensamentos de prisioneiro. Obviamente, não preso a uma cela, mas a um quarto de uma janela que nunca era aberta, a uma sala sem móveis; nem mesmo uma poltrona vermelha com algumas almofadas para recostar e folhear um livro, a paredes sem quadros, a cantos sem plantas.
Existem inúmeras formas de se sentir privado de liberdade. A cela é a melhor encarnação dessa privação, mas como naquela campanha de um jornal que sugere breves aprisionamentos urbanos, mostrando a foto de um longo engarrafamento, há outros modelos de cárceres. A disciplina humana representa bem um modelo crônico, o de se habituar a tudo e tardiamente surpreender-se prisioneiro. Atormentava-o, no entanto, o desejo por outra pessoa, não uma pessoa em especial – a humanidade é razoavelmente especial. O quarto vazio se enchia de pessoas que havia conhecido em outros contextos e as quais desejara. Um arroubo agudo de homem livre. Era possível ver detalhes de seus corpos e o motivo do desejo engendrado neles; as caras, naturalmente, eram mais reais, pálpebras fechando-se e revelando longos cílios negros, pontas de língua umedecendo lábios e um ou outro joelho à mostra, panturrilha flexionada visível. Servia, com eficiência, para passar o tempo, mas o seu tempo se esgotava, sinal que não estava tão aprisionado assim, pois o que um prisioneiro mais tem, é tempo.
Ligou a tevê. Não havia sinal de canal algum. Talvez nem tivesse antena. Vestiu as calças, escovou os dentes, saiu. O dia estava frio e ensolarado. Jogou a chave por debaixo da porta. Talvez retornasse, mas sem data marcada. Como o próprio Jean Sorel, dizia “tenho pão e sou livre.”
Encolhido e com as mãos apertadas no bolso da calça jeans, seguiu. Sentia o vento minuano gelado cortar a pele do rosto, sentimento maior de um homem livre.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Cartas do ermo.

Escrevo-lhe do fim do mundo. Há dias as cerrações não nos deixam ver palmo adiante do nariz. Cada vez que abro o armário, encontro mais casacos e pulôveres mofados. Tudo sucumbe ao fungo nesta terra.
Não há vento nem sol. Será que a vida pode prosseguir na terra sem sol, sem movimento atmosférico, sem o tremer das árvores?
Uma amiga jornalista diz que é como viver em Londres e eu completo dizendo que até pode ser, mas sem o Tamisa e sem nenhum charme.
Há tumultos por todo o prédio. É possível que o vizinho de cima esteja se mudando pelo arrastar de móveis e o barulho que vem do último andar, falou-me o outro vizinho, só pode ser o senhorio que resolveu trocar as caixas d’água.
Trocar as caixas d’água! Para que? É uma nova norma da prefeitura. Se pelo menos fosse numa segunda-feira...
Abro o jornal diário e leio a notícia das mais curiosas sobre a investigação de um subprefeito que é acusado de má gestão do dinheiro público. Nada de novo além do depoimento de uma funcionária que se soma ao inquérito. Ela afirma ter sido obrigada a cuidar do filho bipolar do subprefeito. Tinha que fazer expediente na casa do chefe e levar o rapaz até o psiquiatra uma vez por semana e, apesar de toda essa dedicação, era forçada a ouvir os gritos e as grosserias do homem durante o expediente. Mais uma vítima de assédio moral. Em sua defesa disse o subprefeito: “o que esperam de um gringo aqui no meio do mato?”. Foi esta mesmo a resposta que ele deu, meu caro.
Que gritem e esbravejem, decerto. Mas do distrito que comanda não se pode dizer que é um lugar selvagem, pelo contrário, é bastante urbanizado; há algumas grandes indústrias por lá e também um considerável fluxo de turistas. Tu vais gostar do castelo que abriga uma cantina. Deveria arrumar uma melhor desculpa, este senhor, não acha?
Do filho bipolar do subprefeito passo a pensar em um novo amigo. Trabalha na lancheria aqui perto de casa, aliás, casa de lanches, lancheria é pejorativo. Atende a todos sem falar uma palavra. Não me intrigara até então, pois a expressividade no olhar dava conta de toda a comunicação necessária a uma ação de varejo. Quando puxei a banqueta e me aproximei do balcão – sabes como é, pois bem me conheces – puxei aquela conversa e então percebi o silêncio unilateral. O silêncio tinha um significado, todavia, nenhuma causa aparente. Não se parece com trauma familiar, pois são bastante amistosos todos os parentes os quais não se incomodam com o silêncio do primogênito. Não é surdo-mudo, autista e nem o gato comera a sua língua. Um belo dia ele parou de falar; simples assim. Na verdade falava com a mãe, mas só o estritamente necessário. O irmão nascido depois já veio ao mundo com o direito de ouvi-lo; são dois ao todo, então, que ouvem a sua voz. Os outros devem se contentar com acenos, bilhetes e expressões faciais.
É curioso, mas não espantoso nem estranho vê-lo procurar o irmão de 11 anos para ser seu intérprete em situações mais complexas. Ele cochicha discretamente no ouvido do pequeno e o menino rapidamente completa a interlocução.
Como vês, meu caro, em todo o lugar, cada um de se defende com as armas que tem.
Mas voltando as cerrações e por causa delas sugiro que adies tua visita. Não é por mal, mas penso que não terás boa receptividade. Há alguns roteiros mais agradáveis, nesta época. Se bem que não falo como um turista e então tudo pode ser uma questão de ponto-de-vista.
Se decidires vir, avise logo, pois preciso providenciar mais um aquecedor.