- Polônio, chega aqui, quero te apresentar Amália.
- Só um pouquinho... – ele secava o ponche de cidra do paletó enquanto se aproximava.
- Vem logo! Ele é meio desastrado, mas é sangue bom.
- Amália, Polônio; Polônio, Amália – esse era o Meyer, milico, carioca do Meyer; por isso Meyer. Pensava jogar um nos braços do outro.
- Então, muito prazer senhorita Amália – disse Polônio.
- O prazer é meu, mas pra que esta formalidade? – perguntou Amália, irônica.
- Não quis ser formal... é só por que recém nos conhecemos, saca? Mas afinal, o que a traz ao Troféu Forças Vivas? É uma digna agraciada? – Polônio falava, mas não se detinha em sua interlocutora. Olhava para todos os lados, por cima das cabeças, como se procurasse algo.
- Continua a formalidade – ela começou a olhar também sobre as cabeças - De que época tu és? Há séculos não se usa essa expressão “Saca?”.
- A formalidade é só por que falei “digna agraciada”?
- “Digna agraciada”, ora bolas!
- “Ora bolas!” é tão fora de moda quanto “Saca?” – e aí saíram os dois primeiros sorrisos da curta relação.
- Na verdade vim acompanhando uma prima que recebeu o troféu – continuou Amália.
- E onde ela está?
- Não sei. Deve ter se arrumado por aí. Já estava bem altinha...
Uma pausa para uma biritas e....
- Curioso! – disse Polônio, com a testa franzida e coçando a orelha – Primeira vez que conheço alguém com nome de Amália, pessoalmente, pelo menos. Na verdade só conhecia a Amália Rodrigues, a cantora portuguesa.
- Justamente! Foi em homenagem a ela o meu nome.... Minha mãe... sabe? louca por fado. E o seu? É em homenagem ao deus grego?
- Que deus grego? Que deus grego que se chame Polônio!
- Me refiro a Apolo – respondeu Amália, balançando a cabeça em movimentos circulares.
- Neste caso me chamaria Apolônio.
- Apolíneo, tu quer dizer?
- Tá bem, desisto! É que meu pai era químico. Adorava Marie Curie, a química polonesa. Minha mãe até sentia ciúmes – o silêncio denunciava que ela ainda não tinha entendido - Ela descobriu o elemento químico radiativo.
- Quem? Sua mãe?
- Na verdade, Marie Curie. Aí batizou de Polônio em homenagem a Polônia..
- Eu sei, estava brincando. Estudei química no colégio. Marie, mulher de Pierre... Curioso... - hesitou um momento – conhecer alguém que saiu da tabela periódica. Na verdade, já conheci outros elementos químicos pessoalmente. O Germano, o Arsênio, o Hélio..., mas Polônio ainda não conhecia. Mas gosto. É forte, másculo, tem atitude e é sonoro.
- Nome com atitude! Esta é boa, mas eu também gosto do meu nome. É singular...
Para quebrar de vez o gelo, Polônio armou-se de um sorriso sem vergonha e, conformado com a peculiar alcunha, lascou:- Mas poderia ser pior. Por sorte não me chamo Estrôncio ou Xenônio.
domingo, 6 de setembro de 2009
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Salsos chorões
Era em Alegrete, na Vila Santos Dumont, que me pendurava nas ramas densas de um salso. O galho, lá no alto, vergava verde e me lançava desde o muro até quase o meio da rua e nunca se entregava; a cada dia ficava mais resistente e, ainda assim, não perdia a flexibilidade.
Então, retirei de um livro o nome pelo qual passei a chamá-lo de um certo dia em diante: salgueiro. Não entendera o salso, na verdade e, tão logo parti, perdeu o chorão o embate com o muro na afeição dos seus proprietários e lhe cerraram as bases.
Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar.
Então, retirei de um livro o nome pelo qual passei a chamá-lo de um certo dia em diante: salgueiro. Não entendera o salso, na verdade e, tão logo parti, perdeu o chorão o embate com o muro na afeição dos seus proprietários e lhe cerraram as bases.
Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar.
domingo, 16 de agosto de 2009
Pensamentos de um homem livre.
Estamos em maio. Quarta semana. Dia frio para maio. Nessa manhã concluiu ao ver parte da cama desarrumada e ainda quente:
- Enfim, envolvido.
Inesperado foi virem à cabeça pensamentos de homem livre e desejar repentinamente tomar um ônibus e ir ter na grande cidade mais próxima e reencontrar alguns amigos do tempo de universidade e alguns outros apresentados por estes amigos da universidade. Especialmente agradável foi se imaginar na casa de alguém que mora próximo a uma praia – de mar, é claro. Alguns dias, sem data marcada para retornar. Podia sentir a areia sob os pés e o vento que vinha da mata sacudir a palha dos quiosques. Escolheria uma das espreguiçadeiras e ficaria prostrado, talvez lendo alguma amenidade, talvez jogado ao ócio completo, fazendo esforço para registrar cada segundo daquele momento fugidio, enquanto os barcos brancos desaparecem atrás das mil ilhas.
Mas isso, esses pensamentos, só duraram alguns breves momentos. Depois, passou a ter exclusivamente pensamentos de prisioneiro. Obviamente, não preso a uma cela, mas a um quarto de uma janela que nunca era aberta, a uma sala sem móveis; nem mesmo uma poltrona vermelha com algumas almofadas para recostar e folhear um livro, a paredes sem quadros, a cantos sem plantas.
Existem inúmeras formas de se sentir privado de liberdade. A cela é a melhor encarnação dessa privação, mas como naquela campanha de um jornal que sugere breves aprisionamentos urbanos, mostrando a foto de um longo engarrafamento, há outros modelos de cárceres. A disciplina humana representa bem um modelo crônico, o de se habituar a tudo e tardiamente surpreender-se prisioneiro. Atormentava-o, no entanto, o desejo por outra pessoa, não uma pessoa em especial – a humanidade é razoavelmente especial. O quarto vazio se enchia de pessoas que havia conhecido em outros contextos e as quais desejara. Um arroubo agudo de homem livre. Era possível ver detalhes de seus corpos e o motivo do desejo engendrado neles; as caras, naturalmente, eram mais reais, pálpebras fechando-se e revelando longos cílios negros, pontas de língua umedecendo lábios e um ou outro joelho à mostra, panturrilha flexionada visível. Servia, com eficiência, para passar o tempo, mas o seu tempo se esgotava, sinal que não estava tão aprisionado assim, pois o que um prisioneiro mais tem, é tempo.
Ligou a tevê. Não havia sinal de canal algum. Talvez nem tivesse antena. Vestiu as calças, escovou os dentes, saiu. O dia estava frio e ensolarado. Jogou a chave por debaixo da porta. Talvez retornasse, mas sem data marcada. Como o próprio Jean Sorel, dizia “tenho pão e sou livre.”
Encolhido e com as mãos apertadas no bolso da calça jeans, seguiu. Sentia o vento minuano gelado cortar a pele do rosto, sentimento maior de um homem livre.
- Enfim, envolvido.
Inesperado foi virem à cabeça pensamentos de homem livre e desejar repentinamente tomar um ônibus e ir ter na grande cidade mais próxima e reencontrar alguns amigos do tempo de universidade e alguns outros apresentados por estes amigos da universidade. Especialmente agradável foi se imaginar na casa de alguém que mora próximo a uma praia – de mar, é claro. Alguns dias, sem data marcada para retornar. Podia sentir a areia sob os pés e o vento que vinha da mata sacudir a palha dos quiosques. Escolheria uma das espreguiçadeiras e ficaria prostrado, talvez lendo alguma amenidade, talvez jogado ao ócio completo, fazendo esforço para registrar cada segundo daquele momento fugidio, enquanto os barcos brancos desaparecem atrás das mil ilhas.
Mas isso, esses pensamentos, só duraram alguns breves momentos. Depois, passou a ter exclusivamente pensamentos de prisioneiro. Obviamente, não preso a uma cela, mas a um quarto de uma janela que nunca era aberta, a uma sala sem móveis; nem mesmo uma poltrona vermelha com algumas almofadas para recostar e folhear um livro, a paredes sem quadros, a cantos sem plantas.
Existem inúmeras formas de se sentir privado de liberdade. A cela é a melhor encarnação dessa privação, mas como naquela campanha de um jornal que sugere breves aprisionamentos urbanos, mostrando a foto de um longo engarrafamento, há outros modelos de cárceres. A disciplina humana representa bem um modelo crônico, o de se habituar a tudo e tardiamente surpreender-se prisioneiro. Atormentava-o, no entanto, o desejo por outra pessoa, não uma pessoa em especial – a humanidade é razoavelmente especial. O quarto vazio se enchia de pessoas que havia conhecido em outros contextos e as quais desejara. Um arroubo agudo de homem livre. Era possível ver detalhes de seus corpos e o motivo do desejo engendrado neles; as caras, naturalmente, eram mais reais, pálpebras fechando-se e revelando longos cílios negros, pontas de língua umedecendo lábios e um ou outro joelho à mostra, panturrilha flexionada visível. Servia, com eficiência, para passar o tempo, mas o seu tempo se esgotava, sinal que não estava tão aprisionado assim, pois o que um prisioneiro mais tem, é tempo.
Ligou a tevê. Não havia sinal de canal algum. Talvez nem tivesse antena. Vestiu as calças, escovou os dentes, saiu. O dia estava frio e ensolarado. Jogou a chave por debaixo da porta. Talvez retornasse, mas sem data marcada. Como o próprio Jean Sorel, dizia “tenho pão e sou livre.”
Encolhido e com as mãos apertadas no bolso da calça jeans, seguiu. Sentia o vento minuano gelado cortar a pele do rosto, sentimento maior de um homem livre.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Cartas do ermo.
Escrevo-lhe do fim do mundo. Há dias as cerrações não nos deixam ver palmo adiante do nariz. Cada vez que abro o armário, encontro mais casacos e pulôveres mofados. Tudo sucumbe ao fungo nesta terra.
Não há vento nem sol. Será que a vida pode prosseguir na terra sem sol, sem movimento atmosférico, sem o tremer das árvores?
Uma amiga jornalista diz que é como viver em Londres e eu completo dizendo que até pode ser, mas sem o Tamisa e sem nenhum charme.
Há tumultos por todo o prédio. É possível que o vizinho de cima esteja se mudando pelo arrastar de móveis e o barulho que vem do último andar, falou-me o outro vizinho, só pode ser o senhorio que resolveu trocar as caixas d’água.
Trocar as caixas d’água! Para que? É uma nova norma da prefeitura. Se pelo menos fosse numa segunda-feira...
Abro o jornal diário e leio a notícia das mais curiosas sobre a investigação de um subprefeito que é acusado de má gestão do dinheiro público. Nada de novo além do depoimento de uma funcionária que se soma ao inquérito. Ela afirma ter sido obrigada a cuidar do filho bipolar do subprefeito. Tinha que fazer expediente na casa do chefe e levar o rapaz até o psiquiatra uma vez por semana e, apesar de toda essa dedicação, era forçada a ouvir os gritos e as grosserias do homem durante o expediente. Mais uma vítima de assédio moral. Em sua defesa disse o subprefeito: “o que esperam de um gringo aqui no meio do mato?”. Foi esta mesmo a resposta que ele deu, meu caro.
Que gritem e esbravejem, decerto. Mas do distrito que comanda não se pode dizer que é um lugar selvagem, pelo contrário, é bastante urbanizado; há algumas grandes indústrias por lá e também um considerável fluxo de turistas. Tu vais gostar do castelo que abriga uma cantina. Deveria arrumar uma melhor desculpa, este senhor, não acha?
Do filho bipolar do subprefeito passo a pensar em um novo amigo. Trabalha na lancheria aqui perto de casa, aliás, casa de lanches, lancheria é pejorativo. Atende a todos sem falar uma palavra. Não me intrigara até então, pois a expressividade no olhar dava conta de toda a comunicação necessária a uma ação de varejo. Quando puxei a banqueta e me aproximei do balcão – sabes como é, pois bem me conheces – puxei aquela conversa e então percebi o silêncio unilateral. O silêncio tinha um significado, todavia, nenhuma causa aparente. Não se parece com trauma familiar, pois são bastante amistosos todos os parentes os quais não se incomodam com o silêncio do primogênito. Não é surdo-mudo, autista e nem o gato comera a sua língua. Um belo dia ele parou de falar; simples assim. Na verdade falava com a mãe, mas só o estritamente necessário. O irmão nascido depois já veio ao mundo com o direito de ouvi-lo; são dois ao todo, então, que ouvem a sua voz. Os outros devem se contentar com acenos, bilhetes e expressões faciais.
É curioso, mas não espantoso nem estranho vê-lo procurar o irmão de 11 anos para ser seu intérprete em situações mais complexas. Ele cochicha discretamente no ouvido do pequeno e o menino rapidamente completa a interlocução.
Como vês, meu caro, em todo o lugar, cada um de se defende com as armas que tem.
Mas voltando as cerrações e por causa delas sugiro que adies tua visita. Não é por mal, mas penso que não terás boa receptividade. Há alguns roteiros mais agradáveis, nesta época. Se bem que não falo como um turista e então tudo pode ser uma questão de ponto-de-vista.
Se decidires vir, avise logo, pois preciso providenciar mais um aquecedor.
Não há vento nem sol. Será que a vida pode prosseguir na terra sem sol, sem movimento atmosférico, sem o tremer das árvores?
Uma amiga jornalista diz que é como viver em Londres e eu completo dizendo que até pode ser, mas sem o Tamisa e sem nenhum charme.
Há tumultos por todo o prédio. É possível que o vizinho de cima esteja se mudando pelo arrastar de móveis e o barulho que vem do último andar, falou-me o outro vizinho, só pode ser o senhorio que resolveu trocar as caixas d’água.
Trocar as caixas d’água! Para que? É uma nova norma da prefeitura. Se pelo menos fosse numa segunda-feira...
Abro o jornal diário e leio a notícia das mais curiosas sobre a investigação de um subprefeito que é acusado de má gestão do dinheiro público. Nada de novo além do depoimento de uma funcionária que se soma ao inquérito. Ela afirma ter sido obrigada a cuidar do filho bipolar do subprefeito. Tinha que fazer expediente na casa do chefe e levar o rapaz até o psiquiatra uma vez por semana e, apesar de toda essa dedicação, era forçada a ouvir os gritos e as grosserias do homem durante o expediente. Mais uma vítima de assédio moral. Em sua defesa disse o subprefeito: “o que esperam de um gringo aqui no meio do mato?”. Foi esta mesmo a resposta que ele deu, meu caro.
Que gritem e esbravejem, decerto. Mas do distrito que comanda não se pode dizer que é um lugar selvagem, pelo contrário, é bastante urbanizado; há algumas grandes indústrias por lá e também um considerável fluxo de turistas. Tu vais gostar do castelo que abriga uma cantina. Deveria arrumar uma melhor desculpa, este senhor, não acha?
Do filho bipolar do subprefeito passo a pensar em um novo amigo. Trabalha na lancheria aqui perto de casa, aliás, casa de lanches, lancheria é pejorativo. Atende a todos sem falar uma palavra. Não me intrigara até então, pois a expressividade no olhar dava conta de toda a comunicação necessária a uma ação de varejo. Quando puxei a banqueta e me aproximei do balcão – sabes como é, pois bem me conheces – puxei aquela conversa e então percebi o silêncio unilateral. O silêncio tinha um significado, todavia, nenhuma causa aparente. Não se parece com trauma familiar, pois são bastante amistosos todos os parentes os quais não se incomodam com o silêncio do primogênito. Não é surdo-mudo, autista e nem o gato comera a sua língua. Um belo dia ele parou de falar; simples assim. Na verdade falava com a mãe, mas só o estritamente necessário. O irmão nascido depois já veio ao mundo com o direito de ouvi-lo; são dois ao todo, então, que ouvem a sua voz. Os outros devem se contentar com acenos, bilhetes e expressões faciais.
É curioso, mas não espantoso nem estranho vê-lo procurar o irmão de 11 anos para ser seu intérprete em situações mais complexas. Ele cochicha discretamente no ouvido do pequeno e o menino rapidamente completa a interlocução.
Como vês, meu caro, em todo o lugar, cada um de se defende com as armas que tem.
Mas voltando as cerrações e por causa delas sugiro que adies tua visita. Não é por mal, mas penso que não terás boa receptividade. Há alguns roteiros mais agradáveis, nesta época. Se bem que não falo como um turista e então tudo pode ser uma questão de ponto-de-vista.
Se decidires vir, avise logo, pois preciso providenciar mais um aquecedor.
domingo, 31 de maio de 2009
Sem pressa.
Para falar de minha avó centenária com propriedade, a vó Nita, deveria começar com a mesma doçura com que uma borboleta pousa numa flor. Não me acho capaz, no entanto. Ao fim de um reiterado esforço, após várias tentativas, concluí que nem digno o era, além de correr o risco de resvalar para pieguice. Ora, eu escrever apropriadamente, com minhas próprias palavras, a introdução sobre alguém que atravessou um século com tanta integridade e lucidez! E não se trata de um século qualquer; trata-se do nosso século XX, de luzes, mas também de trevas, e mais uma dezena de anos desse. Preciso de uma referência digna e para isso evoco Norberto Bobbio, quando falou sobre a velhice:
“Se o mundo do futuro se abre para a imaginação, mas não nos pertence mais, o mundo do passado é aquele no qual, recorrendo a nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nós mesmos, debruçar-nos sobre nós mesmos e nele reconstruir nossa identidade; um mundo que se formou e se revelou na série ininterrupta de nossos atos durante a vida, encadeados uns aos outros, um mundo que nos julgou, nos absolveu e nos condenou para depois, uma vez cumprido o percurso de nossa vida, tentarmos fazer um balanço final.”
Ao final desta citação o grande pensador italiano acrescentou que neste momento “é preciso apressar o passo”.
Não é o caso de vó Nita. Interveio a mão pesada do tempo nos seus cabelos brancos, nas rugas que redesenharam suas faces; mas o tempo não deixou traços na consciência e se os deixou não são visíveis ao nosso olhar. Poucas pessoas são tão lúcidas como minha avó. Não sei, e não por teimosia, mas parece que ela ignora alguns fundamentos do tempo e não atribuam a minha avó aquela máxima do velho com alma de jovem, pois decerto, não há nenhum problema com a alma dos velhos. Refiro-me ao tempo real, o do terreno da física. É este tempo que ela parece engambelar.
É preciso ter claro que “o tempo da memória segue um caminho inverso ao do tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram”. De novo, Bobbio. Assim, sua memória saudável deve tornar vivas uma infinidade de lembranças, que ela revive a cada amanhecer, o amanhecer que pode ser qualquer um num intervalo de 100 anos. São, então, milhares de amanheceres, incontáveis chegadas e partidas; inúmeros verões, invernos; flores vermelhas, folhas amarelas; inventores, gênios, descobertas, algumas guerras, momentos de paz, de grades, de liberdades, de revoluções, de movimentos, de heróis, e, enfim, de tardes e noites.
Não é possível aos jovens compreender um tamanho testemunho.
Quantas vidas descendem de seu ventre? Quantos feitos poderiam lhe ser atribuídos? Ahh! ...o que faz o vinho e algumas latas de sardinha a um sangue lusitano! Quantas identidades foram forjadas pelos seus genes?
Espero lhe ter herdado uns quantos, pois a cada um somado melhor será o meu caráter. Todavia não herdei o gene colorado e devo dizer que este não lamento. Sou gremista: paixão que herdei de seu genro e só isso já seria suficiente para supor que ela compreende. Mas ainda há a paixão, aquela latina, ibérica, e de paixão certamente vó Nita entende, pois senão entendesse, não teria vencido os 100 anos.
“Se o mundo do futuro se abre para a imaginação, mas não nos pertence mais, o mundo do passado é aquele no qual, recorrendo a nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nós mesmos, debruçar-nos sobre nós mesmos e nele reconstruir nossa identidade; um mundo que se formou e se revelou na série ininterrupta de nossos atos durante a vida, encadeados uns aos outros, um mundo que nos julgou, nos absolveu e nos condenou para depois, uma vez cumprido o percurso de nossa vida, tentarmos fazer um balanço final.”
Ao final desta citação o grande pensador italiano acrescentou que neste momento “é preciso apressar o passo”.
Não é o caso de vó Nita. Interveio a mão pesada do tempo nos seus cabelos brancos, nas rugas que redesenharam suas faces; mas o tempo não deixou traços na consciência e se os deixou não são visíveis ao nosso olhar. Poucas pessoas são tão lúcidas como minha avó. Não sei, e não por teimosia, mas parece que ela ignora alguns fundamentos do tempo e não atribuam a minha avó aquela máxima do velho com alma de jovem, pois decerto, não há nenhum problema com a alma dos velhos. Refiro-me ao tempo real, o do terreno da física. É este tempo que ela parece engambelar.
É preciso ter claro que “o tempo da memória segue um caminho inverso ao do tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram”. De novo, Bobbio. Assim, sua memória saudável deve tornar vivas uma infinidade de lembranças, que ela revive a cada amanhecer, o amanhecer que pode ser qualquer um num intervalo de 100 anos. São, então, milhares de amanheceres, incontáveis chegadas e partidas; inúmeros verões, invernos; flores vermelhas, folhas amarelas; inventores, gênios, descobertas, algumas guerras, momentos de paz, de grades, de liberdades, de revoluções, de movimentos, de heróis, e, enfim, de tardes e noites.
Não é possível aos jovens compreender um tamanho testemunho.
Quantas vidas descendem de seu ventre? Quantos feitos poderiam lhe ser atribuídos? Ahh! ...o que faz o vinho e algumas latas de sardinha a um sangue lusitano! Quantas identidades foram forjadas pelos seus genes?
Espero lhe ter herdado uns quantos, pois a cada um somado melhor será o meu caráter. Todavia não herdei o gene colorado e devo dizer que este não lamento. Sou gremista: paixão que herdei de seu genro e só isso já seria suficiente para supor que ela compreende. Mas ainda há a paixão, aquela latina, ibérica, e de paixão certamente vó Nita entende, pois senão entendesse, não teria vencido os 100 anos.
domingo, 17 de maio de 2009
Topgun.
No segundo-grau, nos tempos de Emílio Zuñeda, tive um colega impagável, o James. Lembro dele vestindo jaqueta preta de couro, óculos rayban estilo aviador e calças jeans coladas ao corpo. Encarnava o personagem de Tom Cruise, o Maverick, do filme Top Gun. Caminhava como ele, parava como ele e até o sorriso meio abusado ele imitava. Mas seus planos iam além; ele jurava que ia passar entre os primeiros na prova da EPCAR e em poucos anos seria piloto de caça, obviamente, não pilotando os F15 da Marinha Americana, mas as sucatas Xavantes da FAB que viviam se enrodilhando em redes de alta-tensão e matando seus tripulantes. De qualquer forma seria um top gun.
Em pouco tempo, James virou a galhofa da turma, mas ele nem ligava. Era filho único de militar e de uma professora e estava em dia com sua auto-estima. Sendo do PV, tinha uma legião de fãs entre as meninas do curso técnico de contabilidade e a cada semana ele aparecia com uma diferente. Na educação física, diziam sempre que sua namorada era a boqueteira da gurizada do time de basquete e ele, por vias das dúvidas, trocava logo por outra, igualmente feia. Mas o que James desejava era impressionar a Terezinha que, além de ser a mais bonita da sala, era primeira-prenda e dançava na invernada do Farroupilha.
Nas avaliações do bimestre ele foi a surpresa; se ralou como a maioria, mas logo se recuperou. Diferentemente do Fábio Gamino, que só comia choquito pelos corredores e mesmo assim fazia com um pé nas costas as provas da Ana Olinda, James dependia de seu esforço para ter boas notas.
Mas o segredo da quarta-série só eu e o Dutra conhecíamos. Não éramos colegas, mas estávamos no mesmo pelotão para desfilar no 7 de setembro. James, de calça branca e jaleco dourado de porta-bandeira, emborcou litros de iogurte para aliviar o calor na concentração e não convidava ninguém.
Entramos marchando na Praça. Palpitava agitado o coração brasileiro à palavra Pátria. Eu e o Dutra íamos logo atrás de James, quando ouvi um “chuac, chuac” compassado, seguido de um choro baixinho. Ele estava todo cagado, uma mancha amarela percorria toda a perna direita até os sapatos que transbordavam a caganeira. Rebelaram-se a províncias internas de James, por culpa do iogurte. Em segundos todo o pelotão estava às gargalhadas, seguido pela multidão da praça. Os pais de James não riam, naturalmente, mas sua mãe guardou a máquina Yaschica na bolsa. James cruzou frente ao palanque, onde todos riam sem se agüentar, ainda mais cagado, chorando como um bebê e conduzindo o lindo pendão verde-amarelo.
Ao que se sabe e do que se pode presumir da convivência com ele nos anos seguintes, James não alimentou nenhum trauma relacionado àquele desfile de sete de setembro. O desejo de ser top gun não rolou, mas James copiou seu pai e hoje é sargento do Exército Brasileiro.
Em pouco tempo, James virou a galhofa da turma, mas ele nem ligava. Era filho único de militar e de uma professora e estava em dia com sua auto-estima. Sendo do PV, tinha uma legião de fãs entre as meninas do curso técnico de contabilidade e a cada semana ele aparecia com uma diferente. Na educação física, diziam sempre que sua namorada era a boqueteira da gurizada do time de basquete e ele, por vias das dúvidas, trocava logo por outra, igualmente feia. Mas o que James desejava era impressionar a Terezinha que, além de ser a mais bonita da sala, era primeira-prenda e dançava na invernada do Farroupilha.
Nas avaliações do bimestre ele foi a surpresa; se ralou como a maioria, mas logo se recuperou. Diferentemente do Fábio Gamino, que só comia choquito pelos corredores e mesmo assim fazia com um pé nas costas as provas da Ana Olinda, James dependia de seu esforço para ter boas notas.
Mas o segredo da quarta-série só eu e o Dutra conhecíamos. Não éramos colegas, mas estávamos no mesmo pelotão para desfilar no 7 de setembro. James, de calça branca e jaleco dourado de porta-bandeira, emborcou litros de iogurte para aliviar o calor na concentração e não convidava ninguém.
Entramos marchando na Praça. Palpitava agitado o coração brasileiro à palavra Pátria. Eu e o Dutra íamos logo atrás de James, quando ouvi um “chuac, chuac” compassado, seguido de um choro baixinho. Ele estava todo cagado, uma mancha amarela percorria toda a perna direita até os sapatos que transbordavam a caganeira. Rebelaram-se a províncias internas de James, por culpa do iogurte. Em segundos todo o pelotão estava às gargalhadas, seguido pela multidão da praça. Os pais de James não riam, naturalmente, mas sua mãe guardou a máquina Yaschica na bolsa. James cruzou frente ao palanque, onde todos riam sem se agüentar, ainda mais cagado, chorando como um bebê e conduzindo o lindo pendão verde-amarelo.
Ao que se sabe e do que se pode presumir da convivência com ele nos anos seguintes, James não alimentou nenhum trauma relacionado àquele desfile de sete de setembro. O desejo de ser top gun não rolou, mas James copiou seu pai e hoje é sargento do Exército Brasileiro.
Segredos do chef.
Come chocolates, pequena; Come chocolates!/Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates./Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”, lê-se lá pelo meio na “Tabacaria” de Fernando Pessoa, provavelmente um estratagema a extirpar a culpa dos comilões; não há o pecado da gula.
Não tomo leite, não como mel – ainda assim compro 1 kg de mel por mês de um ex-colega de trabalho, pois conheci o frango ao forno dourado por pinceladas de mel - especialidade de Adriana Simonin; que um dia será feito por este que vos escreve em louvor ao mel e a suas sagradas aplicações.
Cozinho com freqüência na casa de uns amigos; um deles não come cebola e afins, o outro é alérgico a tomates, todavia, não os desagrado; é possível sim preparar pratos sem cebola e tomate. Bem, talvez não na Itália como igualmente não seria plausível imaginar a culinária francesa sem o leite, a manteiga e a pimenta do reino. Desafio é cozinhar para alguém especificamente, que se contenta com nissin, Doritos e vive a dizer “é que não sou muito das carnes”.
Há um milagre na junção do azeite ao interior das nozes e a algumas folhas de manjericão. Tira-se algo aqui e acrescenta-se lá; substitui-se e sai do forno uma nova versão que terminará no mais básico e trivial dos rituais, a mastigação. Por que tanta reverência para afinal acabar num ato vital e salivar?
Antropólogos e sociólogos teriam a resposta na ponta da língua. A comida é a mais intrincada sutileza das culturas. Pelos hábitos culinários das civilizações, a evolução dos modos à mesa, a disposição dos talheres e as técnicas de cocção, revela-se o cerne do processo civilizatório. Não considero exagero a afirmação, mas tenho minha própria assertiva. Evoco, de novo, a felicidade e a frugalidade dos instantes. Não pode haver satisfação humana maior do que preparar uma refeição para quem se gosta, ama ou admira. Vejam como se multiplicam as encomendas de lofts aos arquitetos com aquelas grandes cozinhas sem paredes, integradas ao living. Passar do cru para o cozido ou mesmo dispor folhas verdes em um prato é a arte que sobrou aos normais, à média. A cozinha, senhores, é a moldura dos que não manejam pincéis, não dedilham cordas, não fazem rir ou não encantam com a própria beleza.
Já não como chocolate com a mesma verdade que comia antes, lambuzar-se. Mas me inspiro no tomate, o mais diverso dos alimentos. Devo experimentar de tudo, inclusive do quibebes e da carne de porco, desvendar o sabor das culturas, cheiro das ervas, tomilho e tudo que vier com tomate virá bem. O tomate, fruto bonitinho da planta asquerosa, tão sociável que cai bem com tudo.
Não me espanta a infelicidade da amiga Jane que é alérgica ao tomate e por motivo igual não come chocolates.
Não tomo leite, não como mel – ainda assim compro 1 kg de mel por mês de um ex-colega de trabalho, pois conheci o frango ao forno dourado por pinceladas de mel - especialidade de Adriana Simonin; que um dia será feito por este que vos escreve em louvor ao mel e a suas sagradas aplicações.
Cozinho com freqüência na casa de uns amigos; um deles não come cebola e afins, o outro é alérgico a tomates, todavia, não os desagrado; é possível sim preparar pratos sem cebola e tomate. Bem, talvez não na Itália como igualmente não seria plausível imaginar a culinária francesa sem o leite, a manteiga e a pimenta do reino. Desafio é cozinhar para alguém especificamente, que se contenta com nissin, Doritos e vive a dizer “é que não sou muito das carnes”.
Há um milagre na junção do azeite ao interior das nozes e a algumas folhas de manjericão. Tira-se algo aqui e acrescenta-se lá; substitui-se e sai do forno uma nova versão que terminará no mais básico e trivial dos rituais, a mastigação. Por que tanta reverência para afinal acabar num ato vital e salivar?
Antropólogos e sociólogos teriam a resposta na ponta da língua. A comida é a mais intrincada sutileza das culturas. Pelos hábitos culinários das civilizações, a evolução dos modos à mesa, a disposição dos talheres e as técnicas de cocção, revela-se o cerne do processo civilizatório. Não considero exagero a afirmação, mas tenho minha própria assertiva. Evoco, de novo, a felicidade e a frugalidade dos instantes. Não pode haver satisfação humana maior do que preparar uma refeição para quem se gosta, ama ou admira. Vejam como se multiplicam as encomendas de lofts aos arquitetos com aquelas grandes cozinhas sem paredes, integradas ao living. Passar do cru para o cozido ou mesmo dispor folhas verdes em um prato é a arte que sobrou aos normais, à média. A cozinha, senhores, é a moldura dos que não manejam pincéis, não dedilham cordas, não fazem rir ou não encantam com a própria beleza.
Já não como chocolate com a mesma verdade que comia antes, lambuzar-se. Mas me inspiro no tomate, o mais diverso dos alimentos. Devo experimentar de tudo, inclusive do quibebes e da carne de porco, desvendar o sabor das culturas, cheiro das ervas, tomilho e tudo que vier com tomate virá bem. O tomate, fruto bonitinho da planta asquerosa, tão sociável que cai bem com tudo.
Não me espanta a infelicidade da amiga Jane que é alérgica ao tomate e por motivo igual não come chocolates.
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