Atravessava a alameda central do parque de exposições Dr. Lauro Dornelles em direção ao meu local de trabalho em certa feira de primavera. Parados, admirando o que julgavam ser o mais bonito estande do evento, dois senhores conversavam numa manhã de sol de outubro. Reconheci um deles e me aproximei. Franzindo o cenho e firmando os olhos não para enxergar melhor, mas para ativar a memória, Seu Jesus Franco, ou Jesus “Leiteiro” para os íntimos que povoam o Alegrete grande, admitiu, sem rodeios, que eu era familiar, mas que não me reconhecera. Eu só tinha uma resposta:
- Filho do João, tio do Pedro.
Não sei o motivo, mas em certa etapa da vida, os homens calejados pela aridez pampeana, tendem a reprimir a voz de choro e segurar as lágrimas quando alguma memória se alvoroça e seu Jesus, tendo diante si tal alvoroço, reteve-se e dispensou-me apenas um breve abraço, seguidos de tapas fortes, rítmicos e marcados, em minhas costas.
- Este é o filho de um grande amigo – disse ao companheiro de passeio.
Referia-se ao meu pai que além de amigos nutriam a mesma velha paixão pelo MDB. Além do velho João somente o Seu Jesus expressara mágoa em me ver enveredar por outros traçados políticos. Se o fez, é por que sabia que podia. Se já fora pai de tantos, porque não de mais alguns? Era da família.
Em outras ocasiões nos encontramos novamente, ali pelos bancos da Praça Getúlio Vargas, sempre pelas manhãs ensolaradas. Ele, como se treinasse diariamente para não deixar escapar a imagem de minha figura por entre as mechas grisalhas, já de longe se adiantava e dizia meu nome “Júnior!” sempre acompanhado de um aposto “irmão da Aninha”, “tio do Pedro!”. Num desses encontros surpreendi-o orgulhoso de participar de uma confraria de ex-militares egressos da cavalaria, a um amigo de prosa, e usava no peito uma pequena insígnia que o identificava como tal. Ao saber de minha passagem pela arma - que fora fuzileiro como ele - disparou que não havia outro jeito, tinha que ingressar na confraria. Na próxima reunião meu nome já estaria na lista; seria eu o primeiro a fazer parte na sociedade por indicação dele. Há tempos procurava uma pessoa, dizia e “...estava tão perto”. Quanta honra meu velho!
Na última vez que nos encontramos, em frente à Urcamp, ele estava a caminho do jantar e da reunião com seus confrades cavalarianos. Lamentei que não pudesse acompanhá-lo, pois tinha um compromisso de trabalho. Lamentei menos do que ele, percebi, talvez por que não tinha a sua mesma pressa, a sua mesma ansiedade. Declarava-me sem tempo, o tempo que na verdade o meu amigo já percebia lhe faltar.
Eram diferentes nossos relógios e só o tempo nos faz perceber a sua própria relatividade. Estou certo, no entanto, que Seu Jesus, “pelo – duro” assim como eu, reconhece que as melhores coisas que temos a dizer são como espinhos de traíra que teimam em se atravessar na garganta.
domingo, 3 de maio de 2009
Com quase todas as letras.
Há alguns dias revelei a amigos que havia excluído meu perfil do Orkut. Eles me questionaram sobre o motivo, mas eu próprio não sabia a resposta, provavelmente, porque não havia nenhum motivo. Lembro de ter clicado numa barra de menu, onde estava escrito "Excluir conta" - ou algo parecido - à esquerda do monitor e, pronto; pensei, "estou fora".
Dias depois, soube por um desses amigos, que ao contrário do que pensava, meu perfil no Orkut permanecia intacto. Verifiquei e confirmei, estava lá, incluindo um novo scrap. Depois de lê-lo, deletei-o como de hábito e logo me ocupei em refletir sobre o porquê de sair da comunidade de relacionamentos se nem mesmo a levava a sério. Era irrelevante estar ou não, ainda que no início não pensasse assim. Em termos gerais, parecia ser apenas uma perda do interesse e talvez uma certa frustração. Não recebia mais scraps com a mesma freqüência, na verdade, em semanas, respondia a dois ou três apenas. Também não era adicionado por alguém que há tempos eu perdera o rastro, para mim, a melhor qualidade do site. O Orkut, enfim, já havia sido mais eficiente.
Sei de pessoas que saíram do Orkut porque ficaram famosos como um amigo ator. Sei de outras pessoas que saíram e retornaram. E se sei é porque fui convidado mais de uma vez pela mesma pessoa e não porque saio pesquisando sobre o assunto. Poderia, tranqüilamente, fazer o mesmo. A dificuldade seria restaurar a rede de novo, talvez utilizando novos critérios, os quais não estariam contaminados com a ânsia da novidade. Decidi pela exclusão, que não se efetivaria naquele momento. Era coisa para outra hora, outro dia.
Antes de fechar o programa, no entanto, fui percorrer e meu perfil, rever como me apresentava e o que escrevia sobre mim mesmo. Da parte superior da tela retirei a conclusão de que não era bom nisso, falar de mim mesmo.Detive-me brevemente na leitura de um dos dois únicos que constam.Se não encontrava nenhum motivo que justificasse a exclusão, ao menos encontrei um que trabalhava pelo contrário, pela manutenção do meu perfil, e este motivo era o depoimento a meu respeito postado por um amigo. Sem reservas e falsa modéstia, admito que ninguém me descreveria melhor. Por isso, está lá, o meu eu virtual. Meu perfil do Orkut resiste graças às palavras do amigo, que talvez tenha superestimado o meu talento para "enfileirar palavras", o que não importa, já que me descreveu com a pungente franqueza que só um bom e velho amigo é capaz.
Dias depois, soube por um desses amigos, que ao contrário do que pensava, meu perfil no Orkut permanecia intacto. Verifiquei e confirmei, estava lá, incluindo um novo scrap. Depois de lê-lo, deletei-o como de hábito e logo me ocupei em refletir sobre o porquê de sair da comunidade de relacionamentos se nem mesmo a levava a sério. Era irrelevante estar ou não, ainda que no início não pensasse assim. Em termos gerais, parecia ser apenas uma perda do interesse e talvez uma certa frustração. Não recebia mais scraps com a mesma freqüência, na verdade, em semanas, respondia a dois ou três apenas. Também não era adicionado por alguém que há tempos eu perdera o rastro, para mim, a melhor qualidade do site. O Orkut, enfim, já havia sido mais eficiente.
Sei de pessoas que saíram do Orkut porque ficaram famosos como um amigo ator. Sei de outras pessoas que saíram e retornaram. E se sei é porque fui convidado mais de uma vez pela mesma pessoa e não porque saio pesquisando sobre o assunto. Poderia, tranqüilamente, fazer o mesmo. A dificuldade seria restaurar a rede de novo, talvez utilizando novos critérios, os quais não estariam contaminados com a ânsia da novidade. Decidi pela exclusão, que não se efetivaria naquele momento. Era coisa para outra hora, outro dia.
Antes de fechar o programa, no entanto, fui percorrer e meu perfil, rever como me apresentava e o que escrevia sobre mim mesmo. Da parte superior da tela retirei a conclusão de que não era bom nisso, falar de mim mesmo.Detive-me brevemente na leitura de um dos dois únicos que constam.Se não encontrava nenhum motivo que justificasse a exclusão, ao menos encontrei um que trabalhava pelo contrário, pela manutenção do meu perfil, e este motivo era o depoimento a meu respeito postado por um amigo. Sem reservas e falsa modéstia, admito que ninguém me descreveria melhor. Por isso, está lá, o meu eu virtual. Meu perfil do Orkut resiste graças às palavras do amigo, que talvez tenha superestimado o meu talento para "enfileirar palavras", o que não importa, já que me descreveu com a pungente franqueza que só um bom e velho amigo é capaz.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Branco e vermelho.
No café-livraria (ou será livraria-café?), enquanto o som ambiente despeja Nelson Ned (... Mas tudo passa tudo passará / E nada fica / Nada ficará / Só se encontra a felicidade / Quando se entrega o coração...) reviro umas revistas velhas que encontrei sobre o balcão, pois a Zero Hora do dia já está nas mãos do mesmo velho de paletó roxo de sempre. Alguém chega e pergunta: - O que fazes?
É uma colega de trabalho que deixa sempre a filha na escola do outro lado da rua e na volta passa para ver se estou por ali.
- Faço nada além de folhear estas revistas do século passado.
- Deixa disso e vamos até os “macaquinhos”.
Sigo o conselho e ao largar as revistas, dentre elas escapa uma folha arrancada de algum livro novo. Nossa! De um livro novo! Nela li este poema, cujo trecho reproduzo abaixo:
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
É “branco e vermelho” o nome. Mas senão fosse este o nome, assim o nominaria, pois vinha sonhando a tempos palavras assim enfileiradas, domesticamente ajustadas, justapostas uma a uma e assim resolvi me aventurar pela poesia, depois de cansar de tanta prosa.
É uma colega de trabalho que deixa sempre a filha na escola do outro lado da rua e na volta passa para ver se estou por ali.
- Faço nada além de folhear estas revistas do século passado.
- Deixa disso e vamos até os “macaquinhos”.
Sigo o conselho e ao largar as revistas, dentre elas escapa uma folha arrancada de algum livro novo. Nossa! De um livro novo! Nela li este poema, cujo trecho reproduzo abaixo:
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
É “branco e vermelho” o nome. Mas senão fosse este o nome, assim o nominaria, pois vinha sonhando a tempos palavras assim enfileiradas, domesticamente ajustadas, justapostas uma a uma e assim resolvi me aventurar pela poesia, depois de cansar de tanta prosa.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Para lembrar o mestre nos seus 200 anos
ANNABEL LEE *(de Edgar Allan Poe)
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vierama ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veioDe longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcroNeste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão
(como sabem todos, Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Traduzido por Fernando Pessoa
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vierama ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veioDe longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcroNeste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão
(como sabem todos, Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Traduzido por Fernando Pessoa
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Nossos pais e nossos cães.
“Em verdade, é estranho não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas, nem a outras coisas promissoras, a significação de um futuro humano...”
Rilke
Havia muito barulho nas redondezas e muitas coisas a fazer. Curso de inglês on-line, responder a e-mails. Uma manhã de sexta acelerada. Incomum para uma sexta – casual day de um desempregado. Senti o cheiro de fresias, flores que cheiram a chá. Profusão do incenso que queimava sobre a estante de livros. Imaginei-as brancas, frescas e perfeitas - as fresias. Na tela do laptop piscava a barra laranja do messenger.
Entendi o piscar incessante; a pessoa do outro lado dizia “Seu Osório faleceu”. Imaginei-o à calçada da Joaquim Antônio, cuia do mate em uma das mãos, cachorros à volta; dois labradores; um coquer, um vira-lata. Aquela sexta denunciava que o nosso inverno estava de dias contados; não esse inverno, todos os invernos, o inverno como estação. Seu Osório estaria feliz, pois como todo o trabalhador rural, gerente de lavouras de arroz, o frio não lhe trazia boas lembranças, toda aquele barro, toda aquela água e mais a geada; por isso somente era possível vê-lo à calçada ao fim das tardes amenas. Do contrário, estaria dando um jeito de fazer um fogo na lareira ou num chão, galpão qualquer que tivesse lenha. Coisas simples de um homem simples, cujo maior desejo em vida era ver os filhos formados ou encaminhados; o que ele viu.
A morte sempre é triste, não acredito em boa morte. Mas se há o mais próximo disso – da boa morte – há de ser o mínimo sofrimento físico e a felicidade na alma. Meu pai, disseram os médicos, morreu antes de cair ao chão, tal a força do enfarte. Morreu ao lado de um cão fujão, dos netos. Não sofreu, mas duvido que tenha morrido feliz. Seu Osório sofreu dores e desconforto, mas feneceu depois de uma longa vida de 75 anos dedicada a um projeto que viu cumprido. Morreu feliz, certamente.Ele não escreveu nenhum livro, mas tinha pauta para vários. Era um contador de histórias daqueles que só a aridez do pampa produz; expoente da mestiçagem ibérica e pelo – duro. Lembrava de todos os personagens e de suas inter-relações, de modo a deixar cair de inveja letrados quaisquer. Mais do que isso, sabia todos os nomes e a forma como os apresentava, não deixava dúvida sobre o caráter dos quais discorria. Talento cada vez mais raro esse, que contraria a tese de que os velhos não têm boa memória.
Se quiséssemos representar o homem alegretense como Paixão Cortes para o Laçador, seu Osório seria um bom candidato. Foi peão, gerente e dono de lavoura de arroz. Casou-se e teve filhos. Foi vereador do velho MDB durante os anos de chumbo. Tinha no falar, no andar, na alma a estirpe do gaúcho e chegou a experimentar a sensação ímpar de ouvir que ia ser avô.
Há pessoas que não morrem, fenecem, pois o seu legado está em todos os lados para testemunho e inspiração.
Rilke
Havia muito barulho nas redondezas e muitas coisas a fazer. Curso de inglês on-line, responder a e-mails. Uma manhã de sexta acelerada. Incomum para uma sexta – casual day de um desempregado. Senti o cheiro de fresias, flores que cheiram a chá. Profusão do incenso que queimava sobre a estante de livros. Imaginei-as brancas, frescas e perfeitas - as fresias. Na tela do laptop piscava a barra laranja do messenger.
Entendi o piscar incessante; a pessoa do outro lado dizia “Seu Osório faleceu”. Imaginei-o à calçada da Joaquim Antônio, cuia do mate em uma das mãos, cachorros à volta; dois labradores; um coquer, um vira-lata. Aquela sexta denunciava que o nosso inverno estava de dias contados; não esse inverno, todos os invernos, o inverno como estação. Seu Osório estaria feliz, pois como todo o trabalhador rural, gerente de lavouras de arroz, o frio não lhe trazia boas lembranças, toda aquele barro, toda aquela água e mais a geada; por isso somente era possível vê-lo à calçada ao fim das tardes amenas. Do contrário, estaria dando um jeito de fazer um fogo na lareira ou num chão, galpão qualquer que tivesse lenha. Coisas simples de um homem simples, cujo maior desejo em vida era ver os filhos formados ou encaminhados; o que ele viu.
A morte sempre é triste, não acredito em boa morte. Mas se há o mais próximo disso – da boa morte – há de ser o mínimo sofrimento físico e a felicidade na alma. Meu pai, disseram os médicos, morreu antes de cair ao chão, tal a força do enfarte. Morreu ao lado de um cão fujão, dos netos. Não sofreu, mas duvido que tenha morrido feliz. Seu Osório sofreu dores e desconforto, mas feneceu depois de uma longa vida de 75 anos dedicada a um projeto que viu cumprido. Morreu feliz, certamente.Ele não escreveu nenhum livro, mas tinha pauta para vários. Era um contador de histórias daqueles que só a aridez do pampa produz; expoente da mestiçagem ibérica e pelo – duro. Lembrava de todos os personagens e de suas inter-relações, de modo a deixar cair de inveja letrados quaisquer. Mais do que isso, sabia todos os nomes e a forma como os apresentava, não deixava dúvida sobre o caráter dos quais discorria. Talento cada vez mais raro esse, que contraria a tese de que os velhos não têm boa memória.
Se quiséssemos representar o homem alegretense como Paixão Cortes para o Laçador, seu Osório seria um bom candidato. Foi peão, gerente e dono de lavoura de arroz. Casou-se e teve filhos. Foi vereador do velho MDB durante os anos de chumbo. Tinha no falar, no andar, na alma a estirpe do gaúcho e chegou a experimentar a sensação ímpar de ouvir que ia ser avô.
Há pessoas que não morrem, fenecem, pois o seu legado está em todos os lados para testemunho e inspiração.
sábado, 11 de abril de 2009
Pesadelos
Poucas vezes tenho pesadelos, mas quando os tenho o tema central, o plot, é invariavelmente sobre as guerras. Já lutei em tantas delas que as vezes acredito que não sou o covarde que já julguei ser e me vejo como um valente, cheio de coragem heróica, mas os sonhos me traem e logo eu me vejo de novo, escondendo-me dos meus inimigos que me perseguem. Escondo-me em porões, atrás de trincheiras, em velhas casas abandonadas. Este é o momento que o pesadelo se torna mais cruel; reconheço que não consigo lutar e me acordo sobressaltado e com medo.
Porque não creio em Deus não rezo e tampouco tomo um copo de leite morno; sou alérgico a lactose. Resta enfrentar a insônia e é prudente cerrar bem fortemente os olhos, antes que os móveis, o guarda-roupas, a escrivaninha e o criado mudo vejam que estou despertado e começem a tagarelar sem pena de meus ouvidos.
Porque não creio em Deus não rezo e tampouco tomo um copo de leite morno; sou alérgico a lactose. Resta enfrentar a insônia e é prudente cerrar bem fortemente os olhos, antes que os móveis, o guarda-roupas, a escrivaninha e o criado mudo vejam que estou despertado e começem a tagarelar sem pena de meus ouvidos.
A canção de Marlene.
"Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas".
E. E. Cummings
É uma sala ampla, em um prédio dos anos 40, vê-se pela altura do pé-direito e pelo vão das aberturas. Os moveis; estantes, mesas e escrivaninha, remetem ao início do século 20. Mesas de fórmica e armários metálicos destoam do geral. As raridades, no entanto, são os livros que pertenceram a um político e diplomata, cujo retrato ocupa lugar de destaque na sala. No lugar há apenas uma mulher, estudante de arquivologia, que trabalha como voluntária da catalogação e recuperação do acervo. Seu nome é Marlene e trabalha junto a um professor de história, que coordena os trabalhos. O professor chama-se Domingos. Ambos são jovens. Ela acadêmica e bolsista, 24 ou 25 anos. Ele professor doutorando, por volta dos 30 anos.
A bolsita abre algumas janelas e atravessa a sala até uma mesa que apara um aparelho de som. Ela põe um cd, fecha o pequeno compartimento e pressiona o play. Uma música começa a tocar. Marlene aprecia inicialmente e depois reduz o volume. Ela está em pé, próximo à mesa central da sala. Organiza alguns volumes.
A porta da biblioteca se abre. Ouve-se o som do sininho preso no alto da porta. Entra Domingos. Põe o casaco em um cabide e junto, a mochila.O professor resmunga enquanto despe um pesado casaco de lã.
Domingos:
- Pensei ter dito para retirarem esta campainha. Biblioteca é lugar de silêncio.
Marlene:
- Bom dia, professor. É uma harpa eólica...
Domingos:
- O quê?
Marlene:
- Uma harpa eólica....
Domingos:
- Se é uma harpa eólica, devia estar onde há vento...
Marlene não demonstra irritação. Domingos caminha em sua direção. Ela o vê caminhando em slowmotion. Os dois ficam frente a frente com a mesa coberta de livros entre eles, as mão próximas, prostradas sobre um volume de Irmãos Karamazov.Ao fundo toca a canção preferida de Marlene e ela sente que deve tocar a mão de Domingos. Seu coração dispara, a harpa eólica dindala e Marlene esconde sorrateiremante a mãozinha pálida no bolso do seu casaco de kashimir.
E. E. Cummings
É uma sala ampla, em um prédio dos anos 40, vê-se pela altura do pé-direito e pelo vão das aberturas. Os moveis; estantes, mesas e escrivaninha, remetem ao início do século 20. Mesas de fórmica e armários metálicos destoam do geral. As raridades, no entanto, são os livros que pertenceram a um político e diplomata, cujo retrato ocupa lugar de destaque na sala. No lugar há apenas uma mulher, estudante de arquivologia, que trabalha como voluntária da catalogação e recuperação do acervo. Seu nome é Marlene e trabalha junto a um professor de história, que coordena os trabalhos. O professor chama-se Domingos. Ambos são jovens. Ela acadêmica e bolsista, 24 ou 25 anos. Ele professor doutorando, por volta dos 30 anos.
A bolsita abre algumas janelas e atravessa a sala até uma mesa que apara um aparelho de som. Ela põe um cd, fecha o pequeno compartimento e pressiona o play. Uma música começa a tocar. Marlene aprecia inicialmente e depois reduz o volume. Ela está em pé, próximo à mesa central da sala. Organiza alguns volumes.
A porta da biblioteca se abre. Ouve-se o som do sininho preso no alto da porta. Entra Domingos. Põe o casaco em um cabide e junto, a mochila.O professor resmunga enquanto despe um pesado casaco de lã.
Domingos:
- Pensei ter dito para retirarem esta campainha. Biblioteca é lugar de silêncio.
Marlene:
- Bom dia, professor. É uma harpa eólica...
Domingos:
- O quê?
Marlene:
- Uma harpa eólica....
Domingos:
- Se é uma harpa eólica, devia estar onde há vento...
Marlene não demonstra irritação. Domingos caminha em sua direção. Ela o vê caminhando em slowmotion. Os dois ficam frente a frente com a mesa coberta de livros entre eles, as mão próximas, prostradas sobre um volume de Irmãos Karamazov.Ao fundo toca a canção preferida de Marlene e ela sente que deve tocar a mão de Domingos. Seu coração dispara, a harpa eólica dindala e Marlene esconde sorrateiremante a mãozinha pálida no bolso do seu casaco de kashimir.
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