segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carta a Robert Enke

Não nos conhecíamos, não cruzamos as mesmas ruas, não pisamos o mesmo solo europeu, não vivi em tua Hannover, nunca fomos apresentados e é bem provável que nunca o teríamos sido, mas a sua atitude me deixou perplexo, como é de se ficar perplexo sempre que um jovem vencedor decide deixar de viver.
Quem me conhece sabe que pouco conheço do futebol, sua paixão, mas o que sei é que esta paixão não foi suficientemente arrebatadora para prolongar sua jornada ou talvez ela não tenha sido a única ou, ainda, a maior. A depressão figurará nos atestados como motivação, a única motivação, já que outras motivações não te acompanhavam na vida. “A esperança em recuperar desvaneceu-se” – disse-nos sua jovem esposa, mas nunca saberemos - mesmo os que tiverem acesso a tua carta de despedida - que peso teve a pedra sobre teu ombro de Sísifo e com que voracidade o corvo picava o teu fígado.
Nós jovens nos identificamos, teu drama é familiar, ou porque desejaríamos ser o atleta, ou pelo desejo de um final, ou porque quando não é o desassossego é o tédio que nos aborrece, e não adianta ir ao cinema, fazer sexo, ouvir Bach ou descer até Porto Alegre, ao litoral. Poemas de Rilke não nos confortam. Só um fim nos basta e este foi o fim que escolheste, que é o estranho fim de “não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas...”
Alguns te dirão covarde, mesmo diante do diagnóstico de que teus neurotransmissores se rebelaram. Eu te julgarei pertencente à estirpe dos mais corajosos, pois quem não teme a própria morte, temerá o quê?
Poucas vezes o vi em atividade no campo de futebol, sob os travessões e entre as traves do gol. No entanto, nas poucas vezes que te vi na tevê por assinatura de um amigo aficionado pelo Campeonato Europeu e mesmo nos vídeos do Youtube que a ti prestam tributo, percebi seus olhos e lá no fundo uma fagulha de azul fosco quase que se extinguindo. As torcidas vibrando logo após a sua última espetacular defesa – estarias na Copa! - e tu seguindo pelo gramado verde, em direção ao seu ponto de partida, a bola sob um dos braços e aquele amuo no olhar.
Nada mais me intriga, no entanto, que o modo. Tinhas os préstimos da beleza, do poder e da riqueza. Poderia ter dado uma festa com prostitutas em um hotel de luxo, muita bebida, cocaína e por fim uma overdose. Poderia ter jogado o carro esporte de 500 mil euros contra uma árvore e escolheste a estação e a linha de trem, logo no mês em que uma bêbada caída na linha foi salva pelos anjos da guarda dos bêbados e um bebê sobre os trilhos foi salvo por ser tão pequeno.
O que pensaram os condutores da composição vendo tua ronda na gare? Uma viagem... um passeio ao interior da Alemanha?
Temos que admitir meu caro Bob – se é que assim posso lhe chamar – há certa coerência na tua escolha; a estação. Afinal, há na vida, seja para qual o fim, oportunidade mais sedutora do que um trem vindo ao encontro e uma estação? Penso eu, humildemente, que não há.
Uma estação é sempre um bom começo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kama Sutra

Decerto todos já viveram a experiência de identificar o momento exato em que o casal do andar de cima está fazendo sexo, por causa da cama que range. Não será culpa do casal de amantes e sim destas construções mal acabadas.
Mas o casal do 03 tem se amado mais selvagemente por estas noites; antes era pra já que se ouvia os passinhos correndo para o benheiro e o chuveiro abrindo. Agora não; tem se prolongado e eu que não durmo ao menor ruído, acordo e sou forçado a ouvir aquele rangido metálico de parafusos frouxos de vai e vem com o pausar que anuncia as mudanças de posição tal como no Kama Sutra.
O pior é que não posso dizer nada à síndica - uma carola - primeiro por constrangimento e, segundo, por que no fundo espero que esta onda de paixão tome conta de todo o prédio rosa, e depois de toda as cercanias o que seria muito bom.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tabela periódica.

- Polônio, chega aqui, quero te apresentar Amália.
- Só um pouquinho... – ele secava o ponche de cidra do paletó enquanto se aproximava.
- Vem logo! Ele é meio desastrado, mas é sangue bom.
- Amália, Polônio; Polônio, Amália – esse era o Meyer, milico, carioca do Meyer; por isso Meyer. Pensava jogar um nos braços do outro.
- Então, muito prazer senhorita Amália – disse Polônio.
- O prazer é meu, mas pra que esta formalidade? – perguntou Amália, irônica.
- Não quis ser formal... é só por que recém nos conhecemos, saca? Mas afinal, o que a traz ao Troféu Forças Vivas? É uma digna agraciada? – Polônio falava, mas não se detinha em sua interlocutora. Olhava para todos os lados, por cima das cabeças, como se procurasse algo.
- Continua a formalidade – ela começou a olhar também sobre as cabeças - De que época tu és? Há séculos não se usa essa expressão “Saca?”.
- A formalidade é só por que falei “digna agraciada”?
- “Digna agraciada”, ora bolas!
- “Ora bolas!” é tão fora de moda quanto “Saca?” – e aí saíram os dois primeiros sorrisos da curta relação.
- Na verdade vim acompanhando uma prima que recebeu o troféu – continuou Amália.
- E onde ela está?
- Não sei. Deve ter se arrumado por aí. Já estava bem altinha...
Uma pausa para uma biritas e....
- Curioso! – disse Polônio, com a testa franzida e coçando a orelha – Primeira vez que conheço alguém com nome de Amália, pessoalmente, pelo menos. Na verdade só conhecia a Amália Rodrigues, a cantora portuguesa.
- Justamente! Foi em homenagem a ela o meu nome.... Minha mãe... sabe? louca por fado. E o seu? É em homenagem ao deus grego?
- Que deus grego? Que deus grego que se chame Polônio!
- Me refiro a Apolo – respondeu Amália, balançando a cabeça em movimentos circulares.
- Neste caso me chamaria Apolônio.
- Apolíneo, tu quer dizer?
- Tá bem, desisto! É que meu pai era químico. Adorava Marie Curie, a química polonesa. Minha mãe até sentia ciúmes – o silêncio denunciava que ela ainda não tinha entendido - Ela descobriu o elemento químico radiativo.
- Quem? Sua mãe?
- Na verdade, Marie Curie. Aí batizou de Polônio em homenagem a Polônia..
- Eu sei, estava brincando. Estudei química no colégio. Marie, mulher de Pierre... Curioso... - hesitou um momento – conhecer alguém que saiu da tabela periódica. Na verdade, já conheci outros elementos químicos pessoalmente. O Germano, o Arsênio, o Hélio..., mas Polônio ainda não conhecia. Mas gosto. É forte, másculo, tem atitude e é sonoro.
- Nome com atitude! Esta é boa, mas eu também gosto do meu nome. É singular...
Para quebrar de vez o gelo, Polônio armou-se de um sorriso sem vergonha e, conformado com a peculiar alcunha, lascou:- Mas poderia ser pior. Por sorte não me chamo Estrôncio ou Xenônio.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Salsos chorões

Era em Alegrete, na Vila Santos Dumont, que me pendurava nas ramas densas de um salso. O galho, lá no alto, vergava verde e me lançava desde o muro até quase o meio da rua e nunca se entregava; a cada dia ficava mais resistente e, ainda assim, não perdia a flexibilidade.
Então, retirei de um livro o nome pelo qual passei a chamá-lo de um certo dia em diante: salgueiro. Não entendera o salso, na verdade e, tão logo parti, perdeu o chorão o embate com o muro na afeição dos seus proprietários e lhe cerraram as bases.
Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Pensamentos de um homem livre.

Estamos em maio. Quarta semana. Dia frio para maio. Nessa manhã concluiu ao ver parte da cama desarrumada e ainda quente:
- Enfim, envolvido.
Inesperado foi virem à cabeça pensamentos de homem livre e desejar repentinamente tomar um ônibus e ir ter na grande cidade mais próxima e reencontrar alguns amigos do tempo de universidade e alguns outros apresentados por estes amigos da universidade. Especialmente agradável foi se imaginar na casa de alguém que mora próximo a uma praia – de mar, é claro. Alguns dias, sem data marcada para retornar. Podia sentir a areia sob os pés e o vento que vinha da mata sacudir a palha dos quiosques. Escolheria uma das espreguiçadeiras e ficaria prostrado, talvez lendo alguma amenidade, talvez jogado ao ócio completo, fazendo esforço para registrar cada segundo daquele momento fugidio, enquanto os barcos brancos desaparecem atrás das mil ilhas.
Mas isso, esses pensamentos, só duraram alguns breves momentos. Depois, passou a ter exclusivamente pensamentos de prisioneiro. Obviamente, não preso a uma cela, mas a um quarto de uma janela que nunca era aberta, a uma sala sem móveis; nem mesmo uma poltrona vermelha com algumas almofadas para recostar e folhear um livro, a paredes sem quadros, a cantos sem plantas.
Existem inúmeras formas de se sentir privado de liberdade. A cela é a melhor encarnação dessa privação, mas como naquela campanha de um jornal que sugere breves aprisionamentos urbanos, mostrando a foto de um longo engarrafamento, há outros modelos de cárceres. A disciplina humana representa bem um modelo crônico, o de se habituar a tudo e tardiamente surpreender-se prisioneiro. Atormentava-o, no entanto, o desejo por outra pessoa, não uma pessoa em especial – a humanidade é razoavelmente especial. O quarto vazio se enchia de pessoas que havia conhecido em outros contextos e as quais desejara. Um arroubo agudo de homem livre. Era possível ver detalhes de seus corpos e o motivo do desejo engendrado neles; as caras, naturalmente, eram mais reais, pálpebras fechando-se e revelando longos cílios negros, pontas de língua umedecendo lábios e um ou outro joelho à mostra, panturrilha flexionada visível. Servia, com eficiência, para passar o tempo, mas o seu tempo se esgotava, sinal que não estava tão aprisionado assim, pois o que um prisioneiro mais tem, é tempo.
Ligou a tevê. Não havia sinal de canal algum. Talvez nem tivesse antena. Vestiu as calças, escovou os dentes, saiu. O dia estava frio e ensolarado. Jogou a chave por debaixo da porta. Talvez retornasse, mas sem data marcada. Como o próprio Jean Sorel, dizia “tenho pão e sou livre.”
Encolhido e com as mãos apertadas no bolso da calça jeans, seguiu. Sentia o vento minuano gelado cortar a pele do rosto, sentimento maior de um homem livre.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Cartas do ermo.

Escrevo-lhe do fim do mundo. Há dias as cerrações não nos deixam ver palmo adiante do nariz. Cada vez que abro o armário, encontro mais casacos e pulôveres mofados. Tudo sucumbe ao fungo nesta terra.
Não há vento nem sol. Será que a vida pode prosseguir na terra sem sol, sem movimento atmosférico, sem o tremer das árvores?
Uma amiga jornalista diz que é como viver em Londres e eu completo dizendo que até pode ser, mas sem o Tamisa e sem nenhum charme.
Há tumultos por todo o prédio. É possível que o vizinho de cima esteja se mudando pelo arrastar de móveis e o barulho que vem do último andar, falou-me o outro vizinho, só pode ser o senhorio que resolveu trocar as caixas d’água.
Trocar as caixas d’água! Para que? É uma nova norma da prefeitura. Se pelo menos fosse numa segunda-feira...
Abro o jornal diário e leio a notícia das mais curiosas sobre a investigação de um subprefeito que é acusado de má gestão do dinheiro público. Nada de novo além do depoimento de uma funcionária que se soma ao inquérito. Ela afirma ter sido obrigada a cuidar do filho bipolar do subprefeito. Tinha que fazer expediente na casa do chefe e levar o rapaz até o psiquiatra uma vez por semana e, apesar de toda essa dedicação, era forçada a ouvir os gritos e as grosserias do homem durante o expediente. Mais uma vítima de assédio moral. Em sua defesa disse o subprefeito: “o que esperam de um gringo aqui no meio do mato?”. Foi esta mesmo a resposta que ele deu, meu caro.
Que gritem e esbravejem, decerto. Mas do distrito que comanda não se pode dizer que é um lugar selvagem, pelo contrário, é bastante urbanizado; há algumas grandes indústrias por lá e também um considerável fluxo de turistas. Tu vais gostar do castelo que abriga uma cantina. Deveria arrumar uma melhor desculpa, este senhor, não acha?
Do filho bipolar do subprefeito passo a pensar em um novo amigo. Trabalha na lancheria aqui perto de casa, aliás, casa de lanches, lancheria é pejorativo. Atende a todos sem falar uma palavra. Não me intrigara até então, pois a expressividade no olhar dava conta de toda a comunicação necessária a uma ação de varejo. Quando puxei a banqueta e me aproximei do balcão – sabes como é, pois bem me conheces – puxei aquela conversa e então percebi o silêncio unilateral. O silêncio tinha um significado, todavia, nenhuma causa aparente. Não se parece com trauma familiar, pois são bastante amistosos todos os parentes os quais não se incomodam com o silêncio do primogênito. Não é surdo-mudo, autista e nem o gato comera a sua língua. Um belo dia ele parou de falar; simples assim. Na verdade falava com a mãe, mas só o estritamente necessário. O irmão nascido depois já veio ao mundo com o direito de ouvi-lo; são dois ao todo, então, que ouvem a sua voz. Os outros devem se contentar com acenos, bilhetes e expressões faciais.
É curioso, mas não espantoso nem estranho vê-lo procurar o irmão de 11 anos para ser seu intérprete em situações mais complexas. Ele cochicha discretamente no ouvido do pequeno e o menino rapidamente completa a interlocução.
Como vês, meu caro, em todo o lugar, cada um de se defende com as armas que tem.
Mas voltando as cerrações e por causa delas sugiro que adies tua visita. Não é por mal, mas penso que não terás boa receptividade. Há alguns roteiros mais agradáveis, nesta época. Se bem que não falo como um turista e então tudo pode ser uma questão de ponto-de-vista.
Se decidires vir, avise logo, pois preciso providenciar mais um aquecedor.

domingo, 31 de maio de 2009

Sem pressa.

Para falar de minha avó centenária com propriedade, a vó Nita, deveria começar com a mesma doçura com que uma borboleta pousa numa flor. Não me acho capaz, no entanto. Ao fim de um reiterado esforço, após várias tentativas, concluí que nem digno o era, além de correr o risco de resvalar para pieguice. Ora, eu escrever apropriadamente, com minhas próprias palavras, a introdução sobre alguém que atravessou um século com tanta integridade e lucidez! E não se trata de um século qualquer; trata-se do nosso século XX, de luzes, mas também de trevas, e mais uma dezena de anos desse. Preciso de uma referência digna e para isso evoco Norberto Bobbio, quando falou sobre a velhice:
“Se o mundo do futuro se abre para a imaginação, mas não nos pertence mais, o mundo do passado é aquele no qual, recorrendo a nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nós mesmos, debruçar-nos sobre nós mesmos e nele reconstruir nossa identidade; um mundo que se formou e se revelou na série ininterrupta de nossos atos durante a vida, encadeados uns aos outros, um mundo que nos julgou, nos absolveu e nos condenou para depois, uma vez cumprido o percurso de nossa vida, tentarmos fazer um balanço final.”
Ao final desta citação o grande pensador italiano acrescentou que neste momento “é preciso apressar o passo”.
Não é o caso de vó Nita. Interveio a mão pesada do tempo nos seus cabelos brancos, nas rugas que redesenharam suas faces; mas o tempo não deixou traços na consciência e se os deixou não são visíveis ao nosso olhar. Poucas pessoas são tão lúcidas como minha avó. Não sei, e não por teimosia, mas parece que ela ignora alguns fundamentos do tempo e não atribuam a minha avó aquela máxima do velho com alma de jovem, pois decerto, não há nenhum problema com a alma dos velhos. Refiro-me ao tempo real, o do terreno da física. É este tempo que ela parece engambelar.
É preciso ter claro que “o tempo da memória segue um caminho inverso ao do tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram”. De novo, Bobbio. Assim, sua memória saudável deve tornar vivas uma infinidade de lembranças, que ela revive a cada amanhecer, o amanhecer que pode ser qualquer um num intervalo de 100 anos. São, então, milhares de amanheceres, incontáveis chegadas e partidas; inúmeros verões, invernos; flores vermelhas, folhas amarelas; inventores, gênios, descobertas, algumas guerras, momentos de paz, de grades, de liberdades, de revoluções, de movimentos, de heróis, e, enfim, de tardes e noites.
Não é possível aos jovens compreender um tamanho testemunho.
Quantas vidas descendem de seu ventre? Quantos feitos poderiam lhe ser atribuídos? Ahh! ...o que faz o vinho e algumas latas de sardinha a um sangue lusitano! Quantas identidades foram forjadas pelos seus genes?
Espero lhe ter herdado uns quantos, pois a cada um somado melhor será o meu caráter. Todavia não herdei o gene colorado e devo dizer que este não lamento. Sou gremista: paixão que herdei de seu genro e só isso já seria suficiente para supor que ela compreende. Mas ainda há a paixão, aquela latina, ibérica, e de paixão certamente vó Nita entende, pois senão entendesse, não teria vencido os 100 anos.