sexta-feira, 12 de março de 2010

Para Nelson.

Na noite de segunda-feira para terça perdi o sono, o que não é um evento raro. Como de costume liguei a tevê para me distrair e, quem sabe, retomar os sonhos. Passava o filme “Cinema, aspirinas e urubus”, para mim, o melhor filme brasileiro dos últimos anos, sobre a amizade insólita entre um alemão e um sertanejo. O alemão percorre o sertão vendendo aspirinas em uma fubica, nos dias que antecedem a entrada do Brasil na Segunda Guerra. Ele dá uma carona ao sertanejo que busca o progresso do sul, enquanto ele foge dos horrores da velha Europa. A separação dos dois é iminente. Em algum momento haverá o afastamento como é corrente nas histórias sobre amigos.

Só pode ser coincidência, pensei, pois a poucas horas me despedira do amigo Nelson Kullmann, no crematório de São Leopoldo. Alemão brasileiro, ela travara sua própria batalha, mas contra um inimigo implacável, um câncer insidioso no cérebro. Gostava de manter longas conversas em torno de uma churrasqueira, comigo inclusive, em suas visitas regulares a Alegrete. Raramente tínhamos a mesma opinião sobre os temas que discorríamos, o que só fortalecia o nosso respeito mútuo. Seu Nélson foi a pessoa que mais sinceramente demonstrou acreditar em minhas competências que até mesmo eu duvido, por vezes, que as tenha. Dele só ouvia palavras de encorajamento, de incentivo e, por isso, mas não só por isso, vou sentir muitas saudades de nossas conversas regadas a chimarrão, vinho chileno ou cerveja e sempre ao som da orquestra de Andre Rieu.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sevilhanos.

Segunda pela manhã, primeiro dia útil após o término do horário brasileiro de verão, acordei com uma estranha vontade de me mudar para Sevilha e foi só porque ouvi João Cabral de Melo Neto dizer que foi em Sevilha que ele conheceu o povo mais gracioso entre os povos. Entre os vários “compreende?” que entremeiam suas falas, disse sobre si mesmo que sendo ele uma pessoa completamente sem graça só poderia sentir-se atraído por um povo gracioso como ele diz ser o sevilhano.

Eu não tenho graça nenhuma e falo da graça, não da análoga à beleza, não que eu tenha a segunda, mas me refiro a que é sinônimo de humor, a graça dos comediantes ou daquela mais trivial que habita a nossa vizinhança, entendida como a capacidade de contar piadas dos que são exímios no ofício do humor.

Eu nunca gostei de piadas, e sempre acreditei não gostar de piadas porque elas nunca são uma piada; após a primeira vem uma penca delas. Não tendo muito estoque de risos e muito menos de gargalhadas, logo não consigo mais rir e me constranjo.

Não gosto de piadas porque simplesmente não acho graça nas piadas. Acho graça, sim da forma como elas são contadas e pouco originais são os estilos atuais. É bem verdade que das piadas do Tuio eu costumava rir até de três, ou quatro, dependendo do quarto lunar, mas decerto é porque ele bem poderia ser um sevilhano, o que só serve para reafirmar que graça é um talento.

Já ri também do Terça Insana, do Cócegas e até do CQC, mas rio mais dos repentes cheios de presença de espírito que alguns amigos deixam escapar, sem que eles próprios reconheçam algum talento para o riso, mas que decerto têm, como os sevilhanos de João Cabral, que mesmo sendo graciosos, certamente assim não se reconhecem.

Eu não tenho nenhum talento para as piadas. Aliás, tenho andado atrás de um talento. Quem tiver algum aí sobrando, que me empreste, se não lhe fizer falta, pois percorrer jornadas atrás de um talento a estas alturas do campeonato não tem a menor graça.

Há uma dose certa de cerveja ou vinho que me deixa um pouco engraçado, eu sei, mas tem que ser uma dose certeira, milimetricamente medida. Um pouco a menos, sou um avoado e por vezes me irrito facilmente, um pouco a mais e me amua o olhar. Assim, para desenvolver o talento da graça , além de beber com alguma freqüência, precisaria beber com muita precisão: outro talento que não possuo.

Devo esquecer esse talento, o de fazer rir. Talvez devesse desenvolver outro; o do melodrama. Almodóvar faz melodrama e ao invés de fazer chorar, faz rir. Ou não é assim em todos os seus filmes? ...aquelas mulheres todas com caras, roupas e jeito de travesti, maquiagem carregada, são tão infelizes, mas tão engraçadas.

Almodóvar bem que poderia ter nascido em Sevilha, mas não, nasceu em La Mancha.

Alguém sabe onde fica esta cidade? Eu não, só sei que não deve ser bom o meu prognóstico. Acho João Cabral e seus “compreende?” muito graciosos e gosto especialmente de vê-lo falar “gracioso” e certamente quem nestes dias gosta desta palavra, só pode ter perdido a graça definitivamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carta a Robert Enke

Não nos conhecíamos, não cruzamos as mesmas ruas, não pisamos o mesmo solo europeu, não vivi em tua Hannover, nunca fomos apresentados e é bem provável que nunca o teríamos sido, mas a sua atitude me deixou perplexo, como é de se ficar perplexo sempre que um jovem vencedor decide deixar de viver.
Quem me conhece sabe que pouco conheço do futebol, sua paixão, mas o que sei é que esta paixão não foi suficientemente arrebatadora para prolongar sua jornada ou talvez ela não tenha sido a única ou, ainda, a maior. A depressão figurará nos atestados como motivação, a única motivação, já que outras motivações não te acompanhavam na vida. “A esperança em recuperar desvaneceu-se” – disse-nos sua jovem esposa, mas nunca saberemos - mesmo os que tiverem acesso a tua carta de despedida - que peso teve a pedra sobre teu ombro de Sísifo e com que voracidade o corvo picava o teu fígado.
Nós jovens nos identificamos, teu drama é familiar, ou porque desejaríamos ser o atleta, ou pelo desejo de um final, ou porque quando não é o desassossego é o tédio que nos aborrece, e não adianta ir ao cinema, fazer sexo, ouvir Bach ou descer até Porto Alegre, ao litoral. Poemas de Rilke não nos confortam. Só um fim nos basta e este foi o fim que escolheste, que é o estranho fim de “não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas...”
Alguns te dirão covarde, mesmo diante do diagnóstico de que teus neurotransmissores se rebelaram. Eu te julgarei pertencente à estirpe dos mais corajosos, pois quem não teme a própria morte, temerá o quê?
Poucas vezes o vi em atividade no campo de futebol, sob os travessões e entre as traves do gol. No entanto, nas poucas vezes que te vi na tevê por assinatura de um amigo aficionado pelo Campeonato Europeu e mesmo nos vídeos do Youtube que a ti prestam tributo, percebi seus olhos e lá no fundo uma fagulha de azul fosco quase que se extinguindo. As torcidas vibrando logo após a sua última espetacular defesa – estarias na Copa! - e tu seguindo pelo gramado verde, em direção ao seu ponto de partida, a bola sob um dos braços e aquele amuo no olhar.
Nada mais me intriga, no entanto, que o modo. Tinhas os préstimos da beleza, do poder e da riqueza. Poderia ter dado uma festa com prostitutas em um hotel de luxo, muita bebida, cocaína e por fim uma overdose. Poderia ter jogado o carro esporte de 500 mil euros contra uma árvore e escolheste a estação e a linha de trem, logo no mês em que uma bêbada caída na linha foi salva pelos anjos da guarda dos bêbados e um bebê sobre os trilhos foi salvo por ser tão pequeno.
O que pensaram os condutores da composição vendo tua ronda na gare? Uma viagem... um passeio ao interior da Alemanha?
Temos que admitir meu caro Bob – se é que assim posso lhe chamar – há certa coerência na tua escolha; a estação. Afinal, há na vida, seja para qual o fim, oportunidade mais sedutora do que um trem vindo ao encontro e uma estação? Penso eu, humildemente, que não há.
Uma estação é sempre um bom começo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kama Sutra

Decerto todos já viveram a experiência de identificar o momento exato em que o casal do andar de cima está fazendo sexo, por causa da cama que range. Não será culpa do casal de amantes e sim destas construções mal acabadas.
Mas o casal do 03 tem se amado mais selvagemente por estas noites; antes era pra já que se ouvia os passinhos correndo para o benheiro e o chuveiro abrindo. Agora não; tem se prolongado e eu que não durmo ao menor ruído, acordo e sou forçado a ouvir aquele rangido metálico de parafusos frouxos de vai e vem com o pausar que anuncia as mudanças de posição tal como no Kama Sutra.
O pior é que não posso dizer nada à síndica - uma carola - primeiro por constrangimento e, segundo, por que no fundo espero que esta onda de paixão tome conta de todo o prédio rosa, e depois de toda as cercanias o que seria muito bom.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tabela periódica.

- Polônio, chega aqui, quero te apresentar Amália.
- Só um pouquinho... – ele secava o ponche de cidra do paletó enquanto se aproximava.
- Vem logo! Ele é meio desastrado, mas é sangue bom.
- Amália, Polônio; Polônio, Amália – esse era o Meyer, milico, carioca do Meyer; por isso Meyer. Pensava jogar um nos braços do outro.
- Então, muito prazer senhorita Amália – disse Polônio.
- O prazer é meu, mas pra que esta formalidade? – perguntou Amália, irônica.
- Não quis ser formal... é só por que recém nos conhecemos, saca? Mas afinal, o que a traz ao Troféu Forças Vivas? É uma digna agraciada? – Polônio falava, mas não se detinha em sua interlocutora. Olhava para todos os lados, por cima das cabeças, como se procurasse algo.
- Continua a formalidade – ela começou a olhar também sobre as cabeças - De que época tu és? Há séculos não se usa essa expressão “Saca?”.
- A formalidade é só por que falei “digna agraciada”?
- “Digna agraciada”, ora bolas!
- “Ora bolas!” é tão fora de moda quanto “Saca?” – e aí saíram os dois primeiros sorrisos da curta relação.
- Na verdade vim acompanhando uma prima que recebeu o troféu – continuou Amália.
- E onde ela está?
- Não sei. Deve ter se arrumado por aí. Já estava bem altinha...
Uma pausa para uma biritas e....
- Curioso! – disse Polônio, com a testa franzida e coçando a orelha – Primeira vez que conheço alguém com nome de Amália, pessoalmente, pelo menos. Na verdade só conhecia a Amália Rodrigues, a cantora portuguesa.
- Justamente! Foi em homenagem a ela o meu nome.... Minha mãe... sabe? louca por fado. E o seu? É em homenagem ao deus grego?
- Que deus grego? Que deus grego que se chame Polônio!
- Me refiro a Apolo – respondeu Amália, balançando a cabeça em movimentos circulares.
- Neste caso me chamaria Apolônio.
- Apolíneo, tu quer dizer?
- Tá bem, desisto! É que meu pai era químico. Adorava Marie Curie, a química polonesa. Minha mãe até sentia ciúmes – o silêncio denunciava que ela ainda não tinha entendido - Ela descobriu o elemento químico radiativo.
- Quem? Sua mãe?
- Na verdade, Marie Curie. Aí batizou de Polônio em homenagem a Polônia..
- Eu sei, estava brincando. Estudei química no colégio. Marie, mulher de Pierre... Curioso... - hesitou um momento – conhecer alguém que saiu da tabela periódica. Na verdade, já conheci outros elementos químicos pessoalmente. O Germano, o Arsênio, o Hélio..., mas Polônio ainda não conhecia. Mas gosto. É forte, másculo, tem atitude e é sonoro.
- Nome com atitude! Esta é boa, mas eu também gosto do meu nome. É singular...
Para quebrar de vez o gelo, Polônio armou-se de um sorriso sem vergonha e, conformado com a peculiar alcunha, lascou:- Mas poderia ser pior. Por sorte não me chamo Estrôncio ou Xenônio.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Salsos chorões

Era em Alegrete, na Vila Santos Dumont, que me pendurava nas ramas densas de um salso. O galho, lá no alto, vergava verde e me lançava desde o muro até quase o meio da rua e nunca se entregava; a cada dia ficava mais resistente e, ainda assim, não perdia a flexibilidade.
Então, retirei de um livro o nome pelo qual passei a chamá-lo de um certo dia em diante: salgueiro. Não entendera o salso, na verdade e, tão logo parti, perdeu o chorão o embate com o muro na afeição dos seus proprietários e lhe cerraram as bases.
Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Pensamentos de um homem livre.

Estamos em maio. Quarta semana. Dia frio para maio. Nessa manhã concluiu ao ver parte da cama desarrumada e ainda quente:
- Enfim, envolvido.
Inesperado foi virem à cabeça pensamentos de homem livre e desejar repentinamente tomar um ônibus e ir ter na grande cidade mais próxima e reencontrar alguns amigos do tempo de universidade e alguns outros apresentados por estes amigos da universidade. Especialmente agradável foi se imaginar na casa de alguém que mora próximo a uma praia – de mar, é claro. Alguns dias, sem data marcada para retornar. Podia sentir a areia sob os pés e o vento que vinha da mata sacudir a palha dos quiosques. Escolheria uma das espreguiçadeiras e ficaria prostrado, talvez lendo alguma amenidade, talvez jogado ao ócio completo, fazendo esforço para registrar cada segundo daquele momento fugidio, enquanto os barcos brancos desaparecem atrás das mil ilhas.
Mas isso, esses pensamentos, só duraram alguns breves momentos. Depois, passou a ter exclusivamente pensamentos de prisioneiro. Obviamente, não preso a uma cela, mas a um quarto de uma janela que nunca era aberta, a uma sala sem móveis; nem mesmo uma poltrona vermelha com algumas almofadas para recostar e folhear um livro, a paredes sem quadros, a cantos sem plantas.
Existem inúmeras formas de se sentir privado de liberdade. A cela é a melhor encarnação dessa privação, mas como naquela campanha de um jornal que sugere breves aprisionamentos urbanos, mostrando a foto de um longo engarrafamento, há outros modelos de cárceres. A disciplina humana representa bem um modelo crônico, o de se habituar a tudo e tardiamente surpreender-se prisioneiro. Atormentava-o, no entanto, o desejo por outra pessoa, não uma pessoa em especial – a humanidade é razoavelmente especial. O quarto vazio se enchia de pessoas que havia conhecido em outros contextos e as quais desejara. Um arroubo agudo de homem livre. Era possível ver detalhes de seus corpos e o motivo do desejo engendrado neles; as caras, naturalmente, eram mais reais, pálpebras fechando-se e revelando longos cílios negros, pontas de língua umedecendo lábios e um ou outro joelho à mostra, panturrilha flexionada visível. Servia, com eficiência, para passar o tempo, mas o seu tempo se esgotava, sinal que não estava tão aprisionado assim, pois o que um prisioneiro mais tem, é tempo.
Ligou a tevê. Não havia sinal de canal algum. Talvez nem tivesse antena. Vestiu as calças, escovou os dentes, saiu. O dia estava frio e ensolarado. Jogou a chave por debaixo da porta. Talvez retornasse, mas sem data marcada. Como o próprio Jean Sorel, dizia “tenho pão e sou livre.”
Encolhido e com as mãos apertadas no bolso da calça jeans, seguiu. Sentia o vento minuano gelado cortar a pele do rosto, sentimento maior de um homem livre.