segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre a verdade

Vó Martina morava em São Francisco de Assis, numa chácara, bem perto da Sanga da Benta. Nas férias de verão passava uns dias com a velha; não me recordo de um acontecimento desagradável que marcasse aquelas breves estadas em São Chico, além de ter, pela primeira vez, desde que tenho noção de minha humanidade, ingerido leite de vaca. Detestava leite e derivados. Gostava mesmo era de tomar café preto gelado num copo alouçado de ½ litro. Para a outra avó, a de Alegrete, representava um sério agravo à saúde. Ela, que me acompanhava desde que mamãe, dada a heroísmos, foi traída pela falta de vasopressina na batalha contra uma hemorragia, tentava de tudo para mudar aquele hábito, sem sucesso. De volta a Alegrete e depois daquela primeira xícara de leite, por um misterioso motivo, abandonei a caneca de café preto gelado, para sempre, e passei a tomar leite como era de se esperar de um guri em fase de crescimento.
Nas férias em São Chico, não havia acontecimento maior que a chegada de vô Marciano do Toroquá, homem de poucas expressões, que só deixava escapar emoções através do azul do olhos e a partir de alguns breves gestos, como o de presentear. Da bagagem retirava morcilhas, queijos, goiabada, açúcar mascavo e muita rapadura, mandada pela tia Antoninha. Era um folguedo. Na verdade, a ida ao Super Safra, o supermercado da cidade, por vezes a superava. Para a empreitada a vó Martina penteava os longos cabelos brancos até as pontas que quase acariciavam os calcanhares, sentada a uma cadeira de palha, sob a vasta parreira, perto do poço d'água. Lembrava uma velha navaja dos filmes. Depois enrolava tudo num coque, pegava o sacolão de couro, a pequena bolsinha cravejada de pedras e subia, despacito, a ladeira, seguida por mim e pela prima Roseane, que morava por lá, desde que sua mãe atinara subverter a capital federal. Era dia de Super Safra e de se empanturrar de guloseimas, comprar revistinhas e ainda tomar um sorvete na volta, obviamente, acompanhado de uma garrafa de guaraná Sielva.
Numa dessas idas à cornucópia assisense, conheci a Maria Circuiti, pessoalmente. Dela, só tinha ouvido falar, mas a reconheci logo que a vi surgir entre as gôndolas. Soluçava e dava saltinhos a cada vez que pronunciava aquela palavra que entre muitas, encarna a feição mais chula da desejada cavidade feminina que, dizem, derrubou reis e aniquilou impérios. Estava a minha frente a mulher que bradava o palavrão, sinônimo de vagina, para os quatro ventos. Apesar dos risos que causava ao passar, via nela um imenso sofrimento. Sabia de histórias, a primeira vista, engraçadas e, de outras, desoladoras. Ela não foi ao casamento da filha, a funerais de parentes, pois o seu distúrbio que se enquadra dentro da chamada Síndrome de Tourette, se agrava em momentos de forte emoção. Amiga de minha vó, era figura freqüente na chácara e nos acostumamos com o seu tique nervoso.
Há tempos, numa festa, comentei com amigos sobre a maldição da triste D. Maria. Não acreditaram, mas dias depois mudaram de posição, quando a história foi ter em ouvidos de outra pessoa que a confirmou.
Pessoas não acreditam na ida do homem à lua, outros na física-quântica, mas acreditam em numerologia, mapa-astral, por isso acredito que grande parte daquilo que acreditamos depende de como andamos tratando nossa cosmovisão.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Deusas de assombrosas tetas

Deveria se chamar “Notas sobre o matrimônio”, mas diriam todos, “como alguém que nunca se casou pode palpitar sobre o casamento?”. Por isso, no topo, a referência a Caetano.

Ela trabalhava na repartição, onde recebia um razoável salário, que somado aos ganhos do marido, um pequeno empreiteiro, dava-lhe o status de classe-média “A”. Isso significa carro do ano na garagem – não conta a camionete do marido que é do trabalho – televisão por assinatura com 2 pontos, um na sala, outro no quarto, computador com internet, I-phone, viagens às Termas ou a Buenos Aires na Páscoa e ao litoral no verão, planos de ter filhos, um casal de gêmeos, para resolver tudo de uma vez só, o de uma pós-graduação e um outro, este totalmente secreto, e só dela, o de por implantes de silicones nos seios.

Havia a mensalidade da casa de repouso onde vivia sua mãe com Alzheimer, mas ela fez as contas e concluiu que com a promoção, uma ajudinha mais do maridão e ela estaria com implante antes da praia de fevereiro. Imaginou-se abundante nas areias de Capão.

Tinha que ser surpresa para ter graça. Ela percebia o modo como ele observava as fotos das modelos dos anúncios nos encartes da Marisa. No usuário dele do computador, sempre uma ou outra foto nova de mulheres em roupas e posições insinuantes. A maioria exibia um grande par de peitos. A relação, o rala-e-rola, oscilava entre períodos quentes, outros frios, quase sempre quentes, mesmo assim ela não ia se arriscar.

- Vou por peitão.

Um dia ele chegaria do trabalho lá pelas 7h, ela já estaria em casa, toda perfumada, esperando, de conjuntinho vermelho, mas sem cinta-liga, porque isso é vulgar. Ligou pra Solange, que sabia tudo sobre plástica e tinha peitões desde que se conheceram:

- Amiga, já recauchutei tudo, mas os peitos são meus, naturalíssimos – revelou Solange. Com a amiga pegou o telefone de um cirurgião uruguaio que fazia milagres e cobrava a metade do preço, mas ainda havia um problema: “A cicatrização, fofa! Tá louca! Não tem como fazer surpresa. São dias de curativos”.

Ela não se sentiu derrotada, inventou um curso de 15 dias e se mandou, com a Solange, que era madame, e não dava satisfações para o marido, rumo a Salto, na República Oriental.

Dias antes, quase desistiu. Ouvira uns boatos de que o cirurgião era meio metido a conquistador, mas foi convencida; "é boato espalhado pela Suzete", que atravessou a fronteira para tirar uns culotes e acabou caída de amores pelo cirurgião.

- Vai tranqüila – disse a Solange – é intriga. No mais, é fama de cirurgião plástico...

- É né? Deve ser a fama... por causa do Pitanguy.

Dias depois, de volta à cidade, sem curativos ou pontos, preparou-se toda. Cabeleireiro, massagens, ofurô. Mostrou pra toda a mulherada. “Eu mato quem abrir esta boca e estragar a surpresa”. Sabem como é cidade pequena.

Ele chegou, foi direto pro banho. Depois, direto pra cama. Ela mandou ver. Foi quente! Ele gostou, estava sem fôlego. Mas se assombrou com os melões. Não disse nada à esposa, mas se lembrou de como era bom quando cabiam inteiros na boca. “É, vou sentir saudades”.

sábado, 8 de maio de 2010

Complexo de Julien Sorel.

“Perdi minha vida por delicadezas”
Artur Rimbaud


Já me chamaram de estranho por gostar de ópera, e por dizer que a melhor cantora do mundo é uma negra americana, que canta em alemão.Já me chamaram de cabeçudo, narigudo e gordo e é certo que ser cabeçudo não tem jeito, mas gordo não sou mais, e o tamanho do nariz posso resolver com uma rinoplastia; só se eu quiser.Algumas coisas têm jeito, outras não.Já me chamaram de confuso e eles têm certa razão, pois ando confundindo mesmo as coisas. Tenho confundido Thomas Hobbes com Thomas Morus, Frei Jaime com Frei Celso, que são freis e Capuchinhos, mas não a mesma pessoa. Admito que ande esquecendo o nome de algumas pessoas, de atores, de filmes, versos de alguns poemas; mas garanto que não fumo maconha e que já marquei a tomografia.
Já me disseram denso, o que deixei para trás para ser tenso, mas preferia a minha velha densidade. A tensão endurece os músculos, pesa a cabeça, tomba os ombros. A densidade nos põe no topo, ainda que imaginário, um topo.
Já me disseram viado por não jogar futebol, de bicha por ler Irmãos Grimm no recreio, indiferentes ao fato de que toda esta história de viado, bicha, tem a ver com sexualidade e pouco com esportes e livros.
Já me perguntaram numa entrevista se sofria de alguma fobia, pois um homem que não tem habilitação pra dirigir aos 30 não deve ser normal, ignorando o fato de que já dirigi trator, camionete, fubica, caminhão velho, lancha, planador, dirigível e asa-delta e o que é melhor; sem nunca ter atropelado alguém. A vida é que, não sei, talvez não esteja sendo bem conduzida, mas é que ainda não pilotei espaço-nave.
Já me chamaram de grosso por ser franco e fingido por ser gentil.
De mentiroso por gostar de metáforas.
De fofoqueiro por ajudar a uma amiga.
De sovina por não dividir a conta do mecânico.
De otário por pagar a dívida, que não era minha, com o serralheiro e a serigrafia...
Já me chamaram de traidor por beijar a ex-namorada de um amigo.
De fiasquento por mandar flores, arrependido, para esse amigo.
De fraco por chorar sempre que leio “Dois Guaxos” do Faraco.
De covarde por ter fugido da briga e por ter medo de tubarão branco.
De bêbado por beber cerveja, ignorando que não bebo uísque.
De frágil por abominar baratas e de idiota por ter nascido.
A verdade é que tem criança que chora ao me ver partir, cãozinho que faz festa ao me ver chegar. Indiferentes aos meus muitos defeitos, tenho amigos, incluindo alguns, que, a caminho da Austrália, passaram por aqui pra se despedir, e incluindo outros que acordam cedo pra me dar 50 contos e um beijo no rosto.
A verdade é que a felicidade me ronda, apesar da rinite/sinusite, da hérnia, do bruxismo, das roupas velhas do armário, dos poucos livros novos na estante.
A verdade, a boa e velha verdade, é que sou livre, tenho pão e sou livre, e assim vou continuar a ser.
Já me chamaram de estranho por gostar de ópera...

sábado, 20 de março de 2010

O que falam sobre os franceses.

Há poucos minutos ela estava no palco da Conferência, no centro da mesa, improvisando uma tradução simultânea para as falas de três debatedores, um alemão, outro canadense e um terceiro, italiano. Movimentava-se com desenvoltura naquela Torre de Babel e vertia tudo para o português com uma verve barbosiana. Antes de subir ao palco do centro de eventos, vestia um casaco sobretudo caramelo ¾, e ao livrar-se do agasalho, mostrou-se elegantemente trajada num taier bege, pescoço protegido por uma echarpe e as mãos por luvas.
Sim, luvas brancas de um tecido que lembrava cetim. Ele nunca vira uma mulher vestir luvas de cetim, a não ser nas cerimônias de casamento. Ela retirou-as com delicadeza, revelando mãos tão finas e alvas, e as depositou no interior da bolsa Channel. Agora, estava sentada a sua frente, a uma mesa de café de distância, sorvendo um chá com madeleines, as quais exalavam seu odor de essência de flor de laranjeira pelo recinto. Sabia que era francesa, mas esquecera seu nome. Procurou no programa, mas nenhum lhe pareceu familiar. Outra pessoa, então, perguntou e ela respondeu, "Eléne Truffaut". Será parente do diretor de cinema?, ele pensou, quase ao mesmo tempo em que a pessoa que antes perguntara o nome, para o qual ela tinha a resposta na ponta da língua: "não, não sou parente do cineasta" - e em bom português, completou - "É um sobrenome muito comum na França, o Truffaut, como Silva no Brasil".

Martine, a discípula de Barthes que figurava como a presença mais importante do congresso, aproximou-se e falou alguma coisa no ouvido de Eléne e saiu. Eléne mal se mexeu e ele sentiu um agradável sentimento de proximidade por aquela estrangeira atraente, cabelos negros, contrastando com a alvura da pele. Sentia que poderia abordá-la sem receio, trocar algumas palavras e logo, estaria com o braço em torno daquela cinturinha, ou no mínimo, sentado a sua frente, à mesma mesa, quando poderia convidá-la para tomar uma bebida.
Faltavam as palavras, no entanto. Precisava articular um plano de aproximação, escolher cada palavra do discurso de apresentação. Pensava na literatura francesa, mas conhecia pouco além de alguma novela de André Gide. Se falasse sobre Foucault, se embaralharia. Sobre cinema, o melhor expediente, o parentesco com Truffaut, já tinha sido desperdiçado por uma criatura efeminada que certamente nutria apenas interesses acadêmicos por Eléne.
Esperou que algo lhe ocorresse e enquanto esperava por esta luz, observava o nevoeiro que se formava no final da tarde no parque serpenteado por Plátanos. Distraído, não percebeu que Eléne já o observava nem tampouco que ela se aproximara e estava em pé ao seu lado.
- Vou me sentar – disse Eléne, já puxando a cadeira.
Em minutos ficaram à vontade; ele, impertinente, retirou as luvas brancas das mãozinhas francesas; ela pagou o vinho caro, chileno; ele soube que ela lecionava na Alemanha; que orientava alunos franceses do doutorado na Universidade de Leipzig. Ele, um simples estudante de Comunicação Social, não tinha motivos para resistir ao convite para tomar a última garrafa de vinho na suíte da moça.
Assim que atravessaram a porta do quarto de hotel, Eléne começou a livrar-se das roupas. Ele abriu o vinho, providenciou as taças e antes de servir-se foi até o banheiro tirar a água do joelho.
Agitava-se de excitação. Encontrou-a já quase sem roupa, sentada na borda da cama, distraída enquanto coçava cuidadosamente o calcanhar. A cada roçada de unha um tipo de pó acinzentado soltava da pele de Eléne, acumulando-se em torno do pé direito, formando um acúmulo do que pareciam raspas de queijo Roquefort. Ele se aproximou para ver com mais detalhe. E era isso mesmo, restos de pele, células mortas acumuladas provavelmente pela ausência de banhos regulares. Mas o que sobressaía era o perfume de Eléne e ao ver os seios nus da francesa, levemente caídos, mas com os bicos bastante empinados, não teve dúvidas que teria uma inesquecível noite de prazer.
Ao final, só teve uma certeza: tudo o que falam sobre os franceses é a mais pura verdade.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para Agustina.

Não vejo sentido nesta promulgada rivalidade entre brasileiros e argentinos. É verdade que tenho mais proximidade com os uruguaios, com sua literatura e música, mas sinto-me freqüentemente mais para a Argentina do que para outras regiões do Brasil; e devemos reconhecer que é fato entre os gaúchos: estamos mais para o sul do que para o norte.
Raramente me prendo à programação do Mais Você, da Ana Maria Braga, mas na quinta-feira última atrasei-me para o trabalho, para acompanhar até o final a entrevista com o ator argentino Mario Jose Paes, o Maradona da novela “Viver a Vida”.
Morando em Búzios há 30 anos, Mario Jose apresentou, em uma excelente reportagem, a cidade que o acolheu e depois foi entrevistado pela apresentadora no que resultou numa conversa extremamente agradável, especialmente pela irresistível simpatia do argentino.
Vendo o programa lembrei-me de boa amiga portenha chamada Agustina Llumá. Bailarina, jornalista; é proprietária de uma das mais importantes publicações sobre arte e cultura da América do Sul, a revista Balentin Dance. Conhecemos-nos em Alegrete, almoçamos, passeamos pela cidade junto ao seu marido, e conversamos sobre nossos interesses comuns como a filosofia e arte. Agustina é uma pessoa de rara amabilidade; sensível, voz serena, boa ouvinte; é uma amiga para toda a vida.
Estas são referências que carrego dos vizinhos, e não aquelas de motoristas imprudentes que cruzam nossas estradas no verão, ou dos veranistas que emporcalham nossas praias. Meus amigos argentinos são pessoas civilizadas; sem dúvida é esta a origem da minha descrença na desavença, e, ainda, devo crer que há civilizados e incivilizados por toda a parte.

Para Nelson.

Na noite de segunda-feira para terça perdi o sono, o que não é um evento raro. Como de costume liguei a tevê para me distrair e, quem sabe, retomar os sonhos. Passava o filme “Cinema, aspirinas e urubus”, para mim, o melhor filme brasileiro dos últimos anos, sobre a amizade insólita entre um alemão e um sertanejo. O alemão percorre o sertão vendendo aspirinas em uma fubica, nos dias que antecedem a entrada do Brasil na Segunda Guerra. Ele dá uma carona ao sertanejo que busca o progresso do sul, enquanto ele foge dos horrores da velha Europa. A separação dos dois é iminente. Em algum momento haverá o afastamento como é corrente nas histórias sobre amigos.

Só pode ser coincidência, pensei, pois a poucas horas me despedira do amigo Nelson Kullmann, no crematório de São Leopoldo. Alemão brasileiro, ela travara sua própria batalha, mas contra um inimigo implacável, um câncer insidioso no cérebro. Gostava de manter longas conversas em torno de uma churrasqueira, comigo inclusive, em suas visitas regulares a Alegrete. Raramente tínhamos a mesma opinião sobre os temas que discorríamos, o que só fortalecia o nosso respeito mútuo. Seu Nélson foi a pessoa que mais sinceramente demonstrou acreditar em minhas competências que até mesmo eu duvido, por vezes, que as tenha. Dele só ouvia palavras de encorajamento, de incentivo e, por isso, mas não só por isso, vou sentir muitas saudades de nossas conversas regadas a chimarrão, vinho chileno ou cerveja e sempre ao som da orquestra de Andre Rieu.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sevilhanos.

Segunda pela manhã, primeiro dia útil após o término do horário brasileiro de verão, acordei com uma estranha vontade de me mudar para Sevilha e foi só porque ouvi João Cabral de Melo Neto dizer que foi em Sevilha que ele conheceu o povo mais gracioso entre os povos. Entre os vários “compreende?” que entremeiam suas falas, disse sobre si mesmo que sendo ele uma pessoa completamente sem graça só poderia sentir-se atraído por um povo gracioso como ele diz ser o sevilhano.

Eu não tenho graça nenhuma e falo da graça, não da análoga à beleza, não que eu tenha a segunda, mas me refiro a que é sinônimo de humor, a graça dos comediantes ou daquela mais trivial que habita a nossa vizinhança, entendida como a capacidade de contar piadas dos que são exímios no ofício do humor.

Eu nunca gostei de piadas, e sempre acreditei não gostar de piadas porque elas nunca são uma piada; após a primeira vem uma penca delas. Não tendo muito estoque de risos e muito menos de gargalhadas, logo não consigo mais rir e me constranjo.

Não gosto de piadas porque simplesmente não acho graça nas piadas. Acho graça, sim da forma como elas são contadas e pouco originais são os estilos atuais. É bem verdade que das piadas do Tuio eu costumava rir até de três, ou quatro, dependendo do quarto lunar, mas decerto é porque ele bem poderia ser um sevilhano, o que só serve para reafirmar que graça é um talento.

Já ri também do Terça Insana, do Cócegas e até do CQC, mas rio mais dos repentes cheios de presença de espírito que alguns amigos deixam escapar, sem que eles próprios reconheçam algum talento para o riso, mas que decerto têm, como os sevilhanos de João Cabral, que mesmo sendo graciosos, certamente assim não se reconhecem.

Eu não tenho nenhum talento para as piadas. Aliás, tenho andado atrás de um talento. Quem tiver algum aí sobrando, que me empreste, se não lhe fizer falta, pois percorrer jornadas atrás de um talento a estas alturas do campeonato não tem a menor graça.

Há uma dose certa de cerveja ou vinho que me deixa um pouco engraçado, eu sei, mas tem que ser uma dose certeira, milimetricamente medida. Um pouco a menos, sou um avoado e por vezes me irrito facilmente, um pouco a mais e me amua o olhar. Assim, para desenvolver o talento da graça , além de beber com alguma freqüência, precisaria beber com muita precisão: outro talento que não possuo.

Devo esquecer esse talento, o de fazer rir. Talvez devesse desenvolver outro; o do melodrama. Almodóvar faz melodrama e ao invés de fazer chorar, faz rir. Ou não é assim em todos os seus filmes? ...aquelas mulheres todas com caras, roupas e jeito de travesti, maquiagem carregada, são tão infelizes, mas tão engraçadas.

Almodóvar bem que poderia ter nascido em Sevilha, mas não, nasceu em La Mancha.

Alguém sabe onde fica esta cidade? Eu não, só sei que não deve ser bom o meu prognóstico. Acho João Cabral e seus “compreende?” muito graciosos e gosto especialmente de vê-lo falar “gracioso” e certamente quem nestes dias gosta desta palavra, só pode ter perdido a graça definitivamente.