No sonho, desci do ônibus e segui pela rua de paralelepípedos. Entrei pelo portão de grades metálicas marrons, bem, não sei ao certo a cor; talvez fosse bordô a cor correta, mas então segui pela calçada que circunda a casa mista de madeira e alvenaria. Caminhei até o “oitão”, modo peculiar como os mais velhos chamavam a parte ao fundo dos pátios. Até alcançá-lo andei ao largo de um canteiro em linha, bordado de ervas, arrudas, cidreiras, cidrós, manjericão e um já velho pé de alecrim, de onde muitas mudas saíram para outros jardins. Lembrei do salso chorão que habitava o local nos anos da infância, e protegia a casa dos vários cães invariavelmente batizados com nomes de galãs ou heroínas de novelas das oito que ajudei vovó a cuidar. Então cheguei aos fundos da casa baixa. Vi a mesa de pedra, o jasmineiro um pouco mais ao fundo. Detive-me por um instante. Era a hora “de la siesta” e deveria de cuidar do rangido da porta, do pisar no assoalho de madeira. Para chegar até a cozinha, preciso curvar o pescoço; a cabeça bate no patamar. Atravesso-o e a primeira visão é a do fogão à lenha, dos doces de abóbora, dos de batata, dos milhos assados na portinhola e do pão feito em casa, nos quais vovó moldava em massa de trigo uns bonecos, meio disformes, com olhos de feijão. A beira do fogo atravessávamos as noites frias sorvendo o mate-doce de leite, com flores de maçanilhas e vendo o “Tempo e o Vento” na tevê, pois guri medroso, me fazia tremer as canelas os delírios de Bibiana.
As lembranças da cozinha são as mais insistentes, têm cheiro, sabor.
Enfim, segui casa adentro; com cuidado afastei a cortininha do quarto e a vi recostada sobre altos travesseiros, plácida, imóvel, os óculos deitados ao lado. Percorreu-me um frio pela espinha, vendo aquela quietude. Pareceu-me que o maior medo que habitava meus dias de guri havia por fim se apresentado, logo quando decidi retornar, recuperar as tardes perdidas, pensei que ela se debandara para outros cantos.
Cheguei perto e mais perto, com cuidado para não lançar ao chão os bibelôs de louça e vi que ela respirava.
De alívio, senti os músculos relaxarem e identifiquei-me em um sonho e como sonhos não atravessam as manhãs, lamentei.
“Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. E alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. E quando penso isto, passeando pelo meu quarto, falando alto, gesticulando... quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.”
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
domingo, 25 de janeiro de 2009
Sombra inefável.
Mario Cladera, escultor uruguaio, está expondo na Galeria Gerd Bornheim em Caxias do Sul. Fui à abertura, na última quinta-feira e o conheci. Quando botei o olho em algumas de suas peças tive a sensação de estar olhando para Vasco Prado, aquele que fez o Negrinho do Pastoreio, do Parque Neyta Ramos. E estava certo sobre a influência, já que ele estudara com o mestre.
Inteligente, erudito e com um ótimo senso de humor, Mario, ficou o tempo todo cercado de admiradores. É casado com uma porto-alegrense, Ana Luíza, esbelta, simpática em seus cabelos descoloridos como os de uma replicante de Ridley Scott. Moram em Porto Alegre já há alguns anos, mas a marca do pampa está representada em parte de sua obra.
Discorrendo sobre estas marcas gravadas em nossas almas fomos longe, galopeando o horizonte de nossa territorialidade comum, e avançamos até Morosoli, Paco Espínola e os Marios - Arregui e Benedetti. Para ele, ser de Alegrete, da fronteira, não é suficiente para conhecer os contistas uruguaios, então tive que puxar pela memória para descobrir a origem de minha familiaridade com as letras cisplatinas. Ana, formada em Letras, reiterou a posição do marido. Lembrei apenas de ter ouvido uma argentina chamada Nacha Guevara, cantando “Te quiero”, uma canção de Benedetti, apresentada a mim pela amiga Leila Almeida, que tem um pé no Uruguai e outro cá. Os outros vieram na carona e ancoraram de vez após a entrevista que fiz com Sergio Faraco, que traduziu boa parte daqueles autores.
Ainda sobre a vida do artista soube de sua educação francesa; perguntou-me parlez-vous francais? – Claro que não! Mas fui aluno de Martine Cotin e é isso com a França além de uma predileção pelo personagem Julien Sorel e pelos filmes de Luis Malle.
Por fim, depois de bebermos espumantes e cervejas, revelou-me que esculpira há pouco um busto do prefeito Pillar, que guardará como esfinge o Centro Administrativo que leva seu nome. Fui forçado a lembrar das palavras de Décio Freitas sobre o monumento a Julio de Castilhos na Praça da Matriz em Porto Alegre, para ele um corolário ao totalitarismo. Está certo que o monumento ao prefeito Pillar é apenas um busto, não tem a grandiosidade e suntuosidade positivista da homenagem a Castilhos, mas em nenhum momento deixei de lembrar da abominável sentença, atribuída a Comte, inscrita em sua base "os vivos são, sempre e cada vez mais, governados pelos mortos”.
Inteligente, erudito e com um ótimo senso de humor, Mario, ficou o tempo todo cercado de admiradores. É casado com uma porto-alegrense, Ana Luíza, esbelta, simpática em seus cabelos descoloridos como os de uma replicante de Ridley Scott. Moram em Porto Alegre já há alguns anos, mas a marca do pampa está representada em parte de sua obra.
Discorrendo sobre estas marcas gravadas em nossas almas fomos longe, galopeando o horizonte de nossa territorialidade comum, e avançamos até Morosoli, Paco Espínola e os Marios - Arregui e Benedetti. Para ele, ser de Alegrete, da fronteira, não é suficiente para conhecer os contistas uruguaios, então tive que puxar pela memória para descobrir a origem de minha familiaridade com as letras cisplatinas. Ana, formada em Letras, reiterou a posição do marido. Lembrei apenas de ter ouvido uma argentina chamada Nacha Guevara, cantando “Te quiero”, uma canção de Benedetti, apresentada a mim pela amiga Leila Almeida, que tem um pé no Uruguai e outro cá. Os outros vieram na carona e ancoraram de vez após a entrevista que fiz com Sergio Faraco, que traduziu boa parte daqueles autores.
Ainda sobre a vida do artista soube de sua educação francesa; perguntou-me parlez-vous francais? – Claro que não! Mas fui aluno de Martine Cotin e é isso com a França além de uma predileção pelo personagem Julien Sorel e pelos filmes de Luis Malle.
Por fim, depois de bebermos espumantes e cervejas, revelou-me que esculpira há pouco um busto do prefeito Pillar, que guardará como esfinge o Centro Administrativo que leva seu nome. Fui forçado a lembrar das palavras de Décio Freitas sobre o monumento a Julio de Castilhos na Praça da Matriz em Porto Alegre, para ele um corolário ao totalitarismo. Está certo que o monumento ao prefeito Pillar é apenas um busto, não tem a grandiosidade e suntuosidade positivista da homenagem a Castilhos, mas em nenhum momento deixei de lembrar da abominável sentença, atribuída a Comte, inscrita em sua base "os vivos são, sempre e cada vez mais, governados pelos mortos”.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
domingo, 21 de dezembro de 2008
Por onde andaste?
Por fim, depois de muito retorcer os pensamentos, percebi que não me queriam por perto. Mas sei que cada opinião vacilava sobre minha permanência ou partida ao sabor da luz dos dias e da direção do vento, mas ao final, na soma dos dias, era isto que queriam, me ver a sesmarias distante. Fui-me.
Ao voltar pude ver a casa absolutamente só, quieta, apesar do dia luminoso que fazia mais desbotado o verdinho das paredes.
O cão não correu ao meu encontro, não pulou, não me lambeu nem ao menos abanou o rabo. Entrei e o silêncio empertigado manteve-se sonoramente.
Olhei pela janela, aquela luminosidade que ofusca os seus próprios raios, já não exultava em seu intento de me cegar. Na rua me olhavam como se nunca saíra dali, como se nunca tivesse dobrado a esquina dos Ipês amarelos, como se nunca tivesse cruzado os trilhos. Recostei-me por breve instante, mas não desfiz malas nem mochilas. Não entreguei presentes nem encomendas.
Se nem o cão não abana o rabo é por que não vacilam mais, é por que não há mais nenhuma fagulha da sombra que jazia por vezes sob a copa de um cinamomo ou perambulava ligeiro pelos corredores à noite.
Ao voltar pude ver a casa absolutamente só, quieta, apesar do dia luminoso que fazia mais desbotado o verdinho das paredes.
O cão não correu ao meu encontro, não pulou, não me lambeu nem ao menos abanou o rabo. Entrei e o silêncio empertigado manteve-se sonoramente.
Olhei pela janela, aquela luminosidade que ofusca os seus próprios raios, já não exultava em seu intento de me cegar. Na rua me olhavam como se nunca saíra dali, como se nunca tivesse dobrado a esquina dos Ipês amarelos, como se nunca tivesse cruzado os trilhos. Recostei-me por breve instante, mas não desfiz malas nem mochilas. Não entreguei presentes nem encomendas.
Se nem o cão não abana o rabo é por que não vacilam mais, é por que não há mais nenhuma fagulha da sombra que jazia por vezes sob a copa de um cinamomo ou perambulava ligeiro pelos corredores à noite.
Woody Allen ou Almodóvar?
Saí há pouco do cinema. Vi o último do Woody Allen "Vicky, Cristina Barcelona". Está bem; estavam lá Javier Barden, Penelope Cruz, Barcelona, Miró, mas não só por isso pensei ter saído da sessão de um filme de Almodóvar. Mesmo assim, gostei.
Surpresa no sacolão.
Dois garotinhos, irmãos gêmeos, com 3 ou no máximo 4 anos estão no "sacolão" com o pai. Os dois ganham cada qual um saco de salgadinhos Elma Chips. Um deles abre logo o seu e sem rodeios demonstra todo o seu contentamento, dizendo:
-Ôoo vida boa!
Todos riem com a espontaneidade do piá, até a italianinha que não mostra os dentes enquanto houver homem no caixa. O outro gêmeo, conserva o seu saco fechado e mostrando uma certa perplexidade diz ao pai:
- Pai, tem que pagar! - ignorando que o velho remeche na carteira a procura da nota certa.
- Pai, a gente não vai pagar? - e o pai paga, eles saem e o guri segue dizendo:
- Pai, tem que pagar!
Dois gêmeos. Duas personalidades já tão difusas em tenra infãncia.
-Ôoo vida boa!
Todos riem com a espontaneidade do piá, até a italianinha que não mostra os dentes enquanto houver homem no caixa. O outro gêmeo, conserva o seu saco fechado e mostrando uma certa perplexidade diz ao pai:
- Pai, tem que pagar! - ignorando que o velho remeche na carteira a procura da nota certa.
- Pai, a gente não vai pagar? - e o pai paga, eles saem e o guri segue dizendo:
- Pai, tem que pagar!
Dois gêmeos. Duas personalidades já tão difusas em tenra infãncia.
O que fica para trás.
Totó era o nome do personagem principal do filme Cinema Paradiso. O menino italiano, apaixonado por cinema, que largou a vida difícil na Sicilia para se transformar em um laureado cineasta em Roma. O personagem virou um arquétipo de todos os cinéfilos, particularmente daqueles que vislumbravam para si um destino idêntico.
O franzino Totó inicia a jornada pentelhando Alfredo, o responsável pela projeção das fitas exibidas na sala de cinema da pequena Giancaldo. Curioso era descobrir que a sala pertencia à Igreja. O Padre era uma figura formidável, engraçado, ele assistia a todos os filmes ante, sozinho na imensidão do cinema vazio, e cortava todas as cenas eróticas, pecaminosas, mesmo que o pecado fosse um inocente beijo ou levantar de saias.
Ele e Totó protagonizaram uma das cenas mais comoventes do filme e talvez do cinema.
Totó depois de substituir Alfredo, ainda guri, na cabine de projeção, deixa a cidade para prestar o Serviço Militar e retorna adulto. Não encontra mais seu grande amor Stela e tampouco perspectivas na cidade e decide deixá-la motivado por Alfredo, seu grande amigo e confidente. “Vá e não volte!” diz Alfredo, cego e melancólico, interpretado pelo charmoso Philip Noiret. “Esta é uma terra má” – referia-se a Sicilia. "quando se vive aqui, pensamos viver no centro do mundo, mas ao retornar depois de muitos anos, percebe-se que nada mudou". Diante de tal eloquência não resta alternativa.
Na estação, todos os amigos estão junto a Totó que espera o trem para Roma. O padre chega atrasado e encontra ele já embarcado no vagão que se afasta, em slowmotion enquanto o velho religioso em sua batina preta lamenta "Que pecatto!" por não ter se despedido do amigo.
As despedidas são tristes, mas também são uma forma de demonstrar a importância que os que se separam representam um para o outro. Estranhamente, mesmo que haja a expectativa de um reencontro em breve, o ritual tem uma simbologia que foge do efêmero, parece consolidar a intenção de se perpetuar a amizade, o respeito mútuo. De marcar com um selo que as experiências vividas juntas vão ficar na memória e vão preservar os motivos que justificariam o reencontro.
No último fim de semana fui a Alegrete para o casamento de um bom amigo e pensei em aproveitar a ocasião para me despedir de um outro. Com o casamento deu tudo certo, foi uma grande festa, um reencontro com tantos queridos desgarrados, mas não deu certo com a despedida. Não houve o reencontro, talvez, por uma série desafortunada de pequenos desencontros, de números de telefones que não existem mais ou que estão com outras pessoas, a agenda que se perdeu, alguém que não deu o recado ou simplesmente, por uma vontade deliberada de não reencontrar para não se despedir.
A ocasião da despedida talvez seja uma das mais simbólicas representações da humanidade. O adeus está presente desde a festa na empresa para o colega que sai transferido até o funeral que nos leva para sempre um ente-querido. Confesso que fiquei um pouco incomodado, por não ter me despedido, deste amigo em questão, mas deles, dos que não se despedem, não posso falar, pois eu mesmo, que digo preservar as despedidas, por diversas vezes deixei para trás lugares e pessoas no meio da madrugada.
O franzino Totó inicia a jornada pentelhando Alfredo, o responsável pela projeção das fitas exibidas na sala de cinema da pequena Giancaldo. Curioso era descobrir que a sala pertencia à Igreja. O Padre era uma figura formidável, engraçado, ele assistia a todos os filmes ante, sozinho na imensidão do cinema vazio, e cortava todas as cenas eróticas, pecaminosas, mesmo que o pecado fosse um inocente beijo ou levantar de saias.
Ele e Totó protagonizaram uma das cenas mais comoventes do filme e talvez do cinema.
Totó depois de substituir Alfredo, ainda guri, na cabine de projeção, deixa a cidade para prestar o Serviço Militar e retorna adulto. Não encontra mais seu grande amor Stela e tampouco perspectivas na cidade e decide deixá-la motivado por Alfredo, seu grande amigo e confidente. “Vá e não volte!” diz Alfredo, cego e melancólico, interpretado pelo charmoso Philip Noiret. “Esta é uma terra má” – referia-se a Sicilia. "quando se vive aqui, pensamos viver no centro do mundo, mas ao retornar depois de muitos anos, percebe-se que nada mudou". Diante de tal eloquência não resta alternativa.
Na estação, todos os amigos estão junto a Totó que espera o trem para Roma. O padre chega atrasado e encontra ele já embarcado no vagão que se afasta, em slowmotion enquanto o velho religioso em sua batina preta lamenta "Que pecatto!" por não ter se despedido do amigo.
As despedidas são tristes, mas também são uma forma de demonstrar a importância que os que se separam representam um para o outro. Estranhamente, mesmo que haja a expectativa de um reencontro em breve, o ritual tem uma simbologia que foge do efêmero, parece consolidar a intenção de se perpetuar a amizade, o respeito mútuo. De marcar com um selo que as experiências vividas juntas vão ficar na memória e vão preservar os motivos que justificariam o reencontro.
No último fim de semana fui a Alegrete para o casamento de um bom amigo e pensei em aproveitar a ocasião para me despedir de um outro. Com o casamento deu tudo certo, foi uma grande festa, um reencontro com tantos queridos desgarrados, mas não deu certo com a despedida. Não houve o reencontro, talvez, por uma série desafortunada de pequenos desencontros, de números de telefones que não existem mais ou que estão com outras pessoas, a agenda que se perdeu, alguém que não deu o recado ou simplesmente, por uma vontade deliberada de não reencontrar para não se despedir.
A ocasião da despedida talvez seja uma das mais simbólicas representações da humanidade. O adeus está presente desde a festa na empresa para o colega que sai transferido até o funeral que nos leva para sempre um ente-querido. Confesso que fiquei um pouco incomodado, por não ter me despedido, deste amigo em questão, mas deles, dos que não se despedem, não posso falar, pois eu mesmo, que digo preservar as despedidas, por diversas vezes deixei para trás lugares e pessoas no meio da madrugada.
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